Category: Zona de Contágio

  • guerra e pandemia: produção de um inimigo invisível contra a vida livre

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    por: Acácio Augusto

    Professor no Departamento de Relações Internacionais da UNIFESP e coordenador do LASInTec. Autor
    de Política e polícia: cuidados, controles e penalizações de jovens, Rio de Janeiro: Lamparina, 2013


    A linguagem…, a linguagem…, dizia meu avô — disse Renzi —, essa frágil e enlouquecida
    matéria sem corpo é uma tênue fibra que entrelaça as pequenas arestas
    e os ângulos superficiais da vida solitária dos seres humanos porque ela os amarra,
    como não? Sim, e os liga, mas só por um instante, antes de voltarem a afundar
    nas mesmas sombras em que estavam mergulhados quando nasceram e berraram
    pela primeira vez sem ser ouvidos, numa remotíssima sala branca, e de onde, outra vez no
    escuro, lançarão em outra sala branca seu último grito antes do fim,
    sem que sua voz tampouco chegue, de certo, a ninguém.
    Ricardo Piglia. Anos de formação. O diário de Emilio Renzi. 2017

    As autoridades governamentais e de organizações internacionais, como o governo brasileiro e a ONU, insistem na retórica da guerra ao vírus para se referir às ações para conter a pandemia da COVID-19 declarada oficialmente no dia 11 de março de 2020. Isso é, também, um atento contra a vida. Não contra a vida em geral, a Ideia de Vida, mas contra a vida real de cada um, a vida livre. Então, se você, virtual leitor, não é patrão, empresário, político, militar ou governante: não caia nesse conto! Não use a metáfora da guerra para se referir a uma luta que é pela vida de cada um e não pela morte de um inimigo invisível e intangível.

    Além disso, essa retórica da guerra não fazer sentido, ela apenas atende aos interesses dos que almejam o controle social e político total antes, durante e após a pandemia. A guerra, como sempre foi para esses senhores, é a saúde do Estado. Uma definição clássica de guerra, orienta que ela é um “conflito armado, público e justo”. Portanto, uma guerra segue uma espécie de roteiro, que mesmo sujeito às intempéries do acaso, possui uma forma específica. Há objetivos, um inimigo declarado, etapas a serem cumpridas, planos de ação e hierarquia dos agentes, gente treinada para matar etc. Ela é a realização de um teatro sangrento, i. e., regulado racionalmente e distribuído no espaço. E mesmo que a chamada guerra clássica tenha se metamorfoseado e hoje leve nomes como “conflito de baixa intensidade”, “guerra de quarta geração” ou “estados de violência”, ela segue produzindo um banho de sangue e uma pilha de cadáveres humanos tomados como inimigos (os treinados para a morte do outro lado), e isso não tem nada a ver com um vírus. Ao menos não deveria ter.

    O uso de analogias e metáforas militares para se referir à ações sanitárias não é novo, trata-se de algo mais ou menos generalizado na linguagem moderna. Em Vigiar e punir, Michel Foucault demonstra como a tecnologia política disciplinar, vinculada aos modernos saberes médico, militar e criminológico, segue o modelo da peste (muito mais que da guerra) como condição ideal de sua realização. E aí não se está exatamente em situação de guerra, mas de repartição disciplinar dos corpos. Isso justifica o controle total da circulação de pessoas e sua divisão no espaço como forma de contenção da contaminação e a necessidade de sacrifício coletivo. Todos obedecem em nome da salvação pública e cada um pode ser isolado.

    Sabemos que as tecnologias disciplinares há muito cederam espaço para as tecnologias políticas da sociedade de controle. No entanto, elementos do efeito disciplinar que se buscava na cidade pestilenta ainda são produzidos, sobretudo a abertura de um campo de capilaridade para exercício dos poderes. Como observa Foucault, “contra a peste que é mistura, a disciplina faz valer seu poder que é de análise. (…) Atrás dos dispositivos disciplinares se lê o terror dos ‘contágios’, da peste, das revoltas, dos crimes,
    da vagabundagem, das deserções, das pessoas que aparecem e desaparecem, vivem e morrem na desordem. (…) No fundo dos esquemas disciplinares, a imagem da peste vale por todas as confusões e desordens; assim como a imagem da lepra, do contato a ser cortado, está no fundo do esquema de exclusão. (…) A divisão constante do normal e do anormal, a que todo indivíduo é submetido, leva até nós, e aplicando-os a objetos totalmente diversos, a marcação binária e o exílio dos leprosos; a existência de todo um conjunto de técnicas e instituições que assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os anormais, faz funcionar os dispositivos disciplinares que o medo da peste chamava” (Vigiar e punir. ed. Vozes, 2002, p. 164-165).


    Mesmo com as metamorfoses do poder disciplinar, notem que não é guerra, mas controle e divisão dos corpos para exercício do poder divisionário e analítico o que está em jogo. E as autoridades continuam dizendo que estamos em guerra. Em texto publicado no dia 22 de março na Folha S. Paulo, o secretário geral da ONU, António Guterres, pontifica que “a Covid-19 é o nosso inimigo comum. Temos de declarar guerra a este vírus. Isso significa que os países têm a responsabilidade de acelerar, reforçar e ampliar a sua ação”. Reiterar que estamos em guerra é o prenúncio de que mortes serão inevitáveis e sacrifícios serão necessários. Insistir na metáfora da guerra é insistir do fomento de uma guerra interna contra e
    entre as pessoas, do Estado contra todos e cada um. E, assim, perde-se de saída. Por dois motivos: o primeiro é factual, pois pressupõe que o vírus está fora, quando está dentro. Logo, como conter a \”invasão\” de algo que já está entre nós e que habita invisível e virtualmente cada um dos corpos?

    O outro motivo é ético-político: médicos e demais trabalhadores da saúde não são soldados. Novamente, trata-se de convocar ao sacrifício. Mobilizar a linguagem da guerra contra um não inimigo (o vírus não declarou guerra a ninguém) só aumenta a conflituosidade social, sobretudo entre os “alistamentos voluntários” de pessoas que sentirão autorizadas a dizer como o outro (vizinhos, por exemplo) devem se comportar durante a pandemia, fazendo das pessoas reais e visíveis, virtuais infectados ou vetores do vírus, os reais inimigos. Essa imagem, criada pelas autoridades e pelos os que governam, não apenas corrói a solidariedade social (essa sim eficiente na contenção e mitigação dos efeitos do vírus) como vai elegendo pessoas e grupos como alvos. Nesse momento entram os exércitos e as polícias como elementos \”necessários\”, agentes da ordem unida que, supostamente, estão atuando de forma
    “enérgica” para o bem de todos.

    Desta maneira, os controles securitários são justificados como medidas duras, mas necessárias, medidas de exceção para uma situação sem precedentes. Mas a verdade é que as autoridades são apontados como solução de um problema que elas mesmos criaram ao usarem a retórica da guerra e ao se colocarem como única forma de conter o vírus, alçado aos status de inimigo mortal. E isso não é o pior, pois essa lógica se espalha entre os que se sentem autorizados a fazer “o que for necessário”. Se espalha, porque os cidadãos em geral se sentem alistados nessa guerra fictícia, ou melhor, fabricada pela retórica da guerra. E como o vírus é invisível, quem vira o inimigo a ser combatido? Virtualmente, qualquer um ou qualquer grupo social. Exemplos não faltam.

    Quando no Brasil a epidemia nem havia se instalado, já corriam relatos de hostilidades contra pessoas com traços asiáticos, com as medidas de isolamento social já em curso. Há relatos de cidadão-polícia que até ovo atiraram em pessoas que estavam sozinhas (sem contato social, portanto) andando de bicicleta na rua. E assim, esse inimigo pode ser os chineses, como insiste o presidente dos EUA Donald Trump e seus asseclas da familícia fascista brasileira; pode ser o imigrante, como foi na Itália; os moradores de rua em qualquer parte do planeta; alguém que (supostamente) desrespeitou a quarentena etc. Em resumo: qualquer um, menos os que produziram essa situação. O campo para o exercício do racismo de Estado se amplifica consideravelmente, inclusive para além das instituições estatais. Muitos, por sua própria condição, serão entregues à mortes e, como já foi dito por diversas autoridades no Brasil, mortes serão necessárias que a “vida volte ao normal e o impacto econômico seja mitigado”.

    É impressionante como mobilizar essa linguagem de guerra e sacrifício faz com que militares, políticos, gestores, empresários e corporações multinacionais caridosas (bancos e empresas de tecnologia computo-informacional, sobretudo), se tornem, magicamente, os heróis e salvadores de uma condição que eles mesmo produziram. Basta notar o que está acontecendo no Brasil, onde a conduta fascista grassava muito antes do espalhamento do vírus e, agora, tem um inimigo intangível pronto a se tornar a fonte de todo mal.


    Tudo que li sobre o controle do vírus em países que o receberam muito antes do Brasil (posso estar errado, pois não sou especialista em questões médicas) informa que a testagem em massa e uso de máscaras (adequadas), além dos cuidados com higiene e com os grupos mais frágeis, são as principais medidas de contenção e/ou mitigação da epidemia. Mas curiosamente falta máscaras e os testes, até o momento, demoram a aparecer. Será que é muito difícil um esforço excepcional (ah!, a economia essa deusa moderna que senta ao lado do deus Mercado!) para produção de máscaras e testes em massa?Porque são tão rápidos em expandir os controles eletrônicos, os monitoramentos mútuos, as declarações de estado de sítio, a imposição do home office, mas tão lentos para produção ou compra de testes e máscaras?


    As notícias em todo planeta também informam que o distanciamento social é necessário neste momento para conter o espalhamento da doença. No entanto, governos declaram quarentena e/ou estado de sítio, mas não investem em testes e equipamentos de proteção, como as máscaras. Falta proteção até para as equipes de médicos e enfermeiros! Pra não falar de entregadores e motoristas de aplicativos, funcionários dos Correios, trabalhadores autônomos e demais trabalhadores que são coagidos a trabalhar sem o devido equipamento de proteção. O que passa então? O que passa é que ao falar de guerra, deixa-se claro que não se trata de conter a epidemia, mas de manter e expandir o controle das ruas, das vias de comunicação, da circulação de bens, pessoas e mercadorias.

    Como sabemos, o poder é logístico. A retórica da guerra é isso: o meio pelo qual antes, durante e depois da pandemia, governos de todo planeta vão justificar as milhares de mortes e buscar manter o controle da logística no planeta. Os Estados e as corporações multinacionais possuem interesses próprios que são antagônicos aos da vida de cada pessoa. Quando eles chamarem, não se aliste nessa guerra fabricada. A melhor maneira de lidar com a situação é pelo autocuidado, o apoio mútuo, a ciência, a ação direta e a defesa da vida. Ficar à mercê das autoridades é entregar a vida aos que, desde sempre, apenas jogam com ela.

    O vírus não é um inimigo, ele é apenas mais um dos vários fluídos venenosos que nos atravessam ao longo da vida. O COVID19, em especial, pode matar, não trata de diminuir esse truísmo, mas de compreender que ele não é um inimigo. O Estado, sim, além de parasita, é um inimigo da vida livre. Como cantou a banda anarcopunk Crass: “eles nos devem uma vida”. Não entregue a sua à eles. Como também colocam esse inventores do punk em seu manifesto inicial: “não há autoridade a não ser vocês mesmo” (Crass: escritos, diálogos e gritos. Imprensa Marginal/No Gods No Masters, 2017, p. 10).

    O Estado e as corporações planetárias não só se interessam por sua vida na medida em que você está disponível a servir, na medida que se entrega à servidão voluntária. A vida não é um fato biológico e não pode estar disponível aos medidores que as contabilizam em bancos de dados estatísticos georreferenciados do nascimento à morte. Vida em servidão não é vida, mas sobrevida.

  • Coronavírus: medidas urgentes de proteção às pessoas em situação de vulnerabilidade

    Iniciativa: Fórum Mundaréu da Luz

    fonte: https://mundareudaluz.org/2020/03/20/coronavirus-medidas-urgentes-de-protecao-as-pessoas-em-situacao-de-vulnerabilidade/

    À Prefeitura de São Paulo
    Ao Governo do Estado de São Paulo
    À Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social
    À Secretaria de Segurança Pública
    À Secretaria Municipal de Saúde
    À Secretaria Municipal de Habitação
    À SP Urbanismo
    Ao Ministério Público do Estado de São Paulo
    À Defensoria Pública do Estado de São Paulo
    Ao Tribunal de Justiça de São Paulo

    A chegada do coronavírus (COVID-19) está impactando a vida de muitas pessoas na cidade de São Paulo. Muitos de nós, de forma acertada, têm passado os últimos dias em isolamento, dentro de casa. Mas e aqueles que não têm casa, o que devem fazer?

    Os impactos de uma pandemia são ainda mais duros em contextos de vulnerabilidade. Certamente, a população em situação de rua requer proteção especial, uma vez que enfrenta obstáculos muito maiores para cumprir com as medidas de prevenção básica da doença. Esta população lida com a falta de acesso a materiais de higiene pessoal, à assistência médica, à água e à alimentação e, por fim, a falta de moradia impossibilita a concretização da recomendação de isolamento social.

    Ainda, os grupos de risco mais suscetíveis à infecção pelo coronavírus compreendem pessoas idosas, gestantes e pessoas com doenças crônicas, imunossupressoras, respiratórias e outras comorbidades preexistentes que possam conduzir a um agravamento do estado geral de saúde a partir do contágio, com especial atenção para diabetes, tuberculose, doenças renais, HIV e coinfecções. Dados do Ministério da Saúde, por exemplo, apontam que a prevalência de tuberculose entre as pessoas em situação de rua pode ser até 70 vezes maior que a população geral.

    Na cidade de São Paulo, os dados do censo divulgado neste ano indicam que pelo menos 24 mil pessoas vivem nas ruas, sendo que 3 mil são mais suscetíveis à complicações pois têm mais de 60 anos. Embora a prefeitura tenha definido um protocolo de atendimento para casos suspeitos entre a população em situação de rua, ainda não foram implementadas ações de prevenção e proteção.

    Moradia é direito básico. Estudos e práticas internacionais mostram que o acesso à moradia diminui significativamente demandas em outros serviços de assistência social, saúde e justiça. Os ganhos são para toda sociedade.

    Neste cenário de pandemia, estratégias de prevenção e proteção são urgentes e devem ser pensadas de acordo a cada contexto. Uma realidade que merece atenção especial é a região dos Campos Elíseos, numa região demarcada pelo Plano Diretor de São Paulo como uma Zona Especial de Interesse Social, uma ZEIS 3, e onde se situa a área conhecida por cracolândia.

    Nesta ZEIS e no seu entorno imediato, as pessoas encontram-se em situação cada vez mais vulnerável, muito em decorrência de ações e do descaso do próprio Estado. Seja pelo recente desmonte de equipamentos e serviços de atendimento e acolhida a pessoas em situação de rua, pela constante e crescente violência policial, pela ameaça iminente de despejo de centenas de pessoas que vivem em pensões e hotéis dos dois quarteirões onde o fluxo da cracolândia costuma se concentrar, ou da remoção pelo poder público de quase 200 famílias de um quarteirão inteiro sem que houvesse atendimento habitacional adequado.

    Se a conjuntura já era complicada e a infraestrutura dos equipamentos existentes insuficiente num cenário pré COVID-19, agora a tendência é de agravamento da situação, caso medidas adequadas não sejam tomadas. As pessoas daquela região, sobretudo as que estão em situação de rua, não têm o mínimo necessário para conter a disseminação do vírus, como torneiras para lavar as mãos, banheiros públicos, álcool gel, muito menos moradias e\\ou abrigos em escala suficiente para o isolamento social.

    Complica ainda mais o fato da prefeitura determinar a paralisação das ações de organizações da sociedade civil conveniadas que atendem diariamente essas pessoas, orientando e promovendo medidas de redução de danos. Outra preocupação é que o modelo de confinamento adotado em centros de acolhida da região como política de quarentena: quem entra não poderá mais sair e, se sair, não poderá regressar.

    Soma-se a isso a portaria anunciada pelo Ministério da Justiça na última terça feira, que prevê medidas como a realização de internações compulsórias e a prisão de até 15 dias a dois anos de pessoas contaminadas ou suspeitas de contaminação por COVID 19, que tenham descumprido a quarentena. Medidas estas que contribuem apenas para o uso arbitrário da força policial e a propagação da infecção nos presídios brasileiros, comprovadamente insalubres conforme atestado pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 347/2015.

    Continuar com a política de cerceamento e violência só vai piorar a situação. Essas medidas adotadas recentemente tiveram como resultado o aumento do fluxo, e não sua diminuição, como era previsto pela prefeitura. É necessário e urgente que sejam adotadas medidas de proteção a essa população, sejam as pessoas que fazem uso de crack, sejam as inúmeras famílias e comerciantes que vivem e trabalham no entorno do fluxo em moradias e imóveis precários.

    Neste momento, é preciso que o Estado assuma sua responsabilidade e adote medidas adequadas à proteção e à realidade das famílias mais vulneráveis. Por tais motivos, exigimos aos governos, instituições, órgãos e autoridades que adotem, em caráter de urgência, as seguintes medidas e ações de prevenção da disseminação do coronavírus, garantindo saúde pública para as pessoas em situação de vulnerabilidade, em especial aquelas que habitam e circulam na região dos Campos Elíseos:

    1. Interrupção dos processos de despejo dos moradores. Este processos devem acontecer apenas com o atendimento habitacional imediato, em moradia próxima e em condições adequadas para o isolamento e com acompanhamento adequado da equipe social antes, durante e após a mudança para a nova moradia, de modo a garantir que nenhum direito seja violado, inclusive , à saúde pública, à educação, etc.;
    2. Suspensão, por pelo menos 60 dias, das cobranças de parcelas e prestações das famílias beneficiadas por programas habitacionais como locação social, carta de crédito ou outros tipos de financiamento, em razão da interrupção e proibição de atividades econômicas geradoras de renda para boa parte dessa população;
    3. Garantia do acesso à moradia digna para as pessoas em situação de rua e que fazem uso de drogas. Para isso, sugerimos a promoção do serviço de moradia terapêutica para pessoas em situação de rua nos prédios públicos vazios da região central. Este serviço deve estar associado ao acompanhamento psicossocial, promovendo não só melhores condições para a contenção da COVID-19, mas também proporcionando a reabilitação e a reinserção social de pessoas que hoje estão em condições de extrema vulnerabilidade social e baixa autonomia, evitando apreensões e prisões de pessoas com pequenas quantidades de drogas;
    4. Oferta urgente de moradia terapêutica para a quarentena de moradores em situação de rua, testados positivos para o COVID-19 ou com suspeita de contaminação em edifícios públicos vazios localizados na área central adaptados para o uso residencial assistido, de acordo com os protocolos de habitabilidade, saúde e assistência social.
    5. Oferta urgente de moradia a idosos em situação de vulnerabilidade, em edifícios públicos vazios adaptados para o uso residencial assistido, de acordo com os protocolos de habitabilidade, saúde e assistência social.
    6. Suspensão das ações de repressão coletiva na cracolândia, realizadas pela Polícia Militar, Civil e Guarda Civil Metropolitana, que envolvem a utilização de instrumentos de repressão como bombas e balas de borracha;
    7. Suspensão do cumprimento e emissão de mandados de busca e apreensão expedidos anteriormente na região da cracolândia para investigação de delitos não violentos, como tráfico de drogas, evitando prisões de grande quantidade de pessoas simultaneamente e superlotação em carceragens policiais;
    8. Instalação de torneiras, bebedouros e banheiros públicos dotados de toda infraestrutura necessária para o correto saneamento e higienização da população, com água encanada, sabonete líquido, papel higiênico/toalha e álcool gel;
    9. Realização e intensificação de ações de prevenção e redução de danos, com insumos (sabão líquido, álcool gel, máscaras, piteiras) e orientações específicas.
    10. Disponibilização de acesso à alimentação adequada, inclusive líquidos, para garantir um estado de saúde minimamente adequado. Esta demanda requer a continuidade da atuação dos restaurantes populares para atendimento da população de rua e a distribuição de cestas básicas para as famílias que vivem em moradias precárias;
    11. 1. Revisão e garantias de recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), uma vez que muitas pessoas em situação de rua, especialmente idosas, tiveram essa transferência de renda negada;
    12. Garantia da oferta de renda mínima ou ajudas de custo mensais, de caráter emergencial, para as pessoas mais sensíveis aos impactos econômicos neste período de controle da pandemia: como famílias muito vulneráveis, trabalhadores informais, autônomos e pequenos comerciantes e também às famílias que forem afetadas pelos cortes de programas federais de transferência de renda;
    13. Garantia o adequado funcionamento dos equipamentos de assistência social, adequados para atuar com cuidados e prevenção à COVID-19.
    14. Ampliação as medidas de prevenção nos albergues municipais, como compras extras de álcool gel, material de limpeza desinfetante, máscaras, luvas aventais e macacões descartáveis para os funcionários, usuários e prestadores de serviços;
    15. Suspensão da cobrança das contas de água e energia elétrica para as famílias em situação de vulnerabilidade social, visto que estas dependem de renda proveniente de trabalho informal que não poderá ser continuado neste período.

    Pela nossa experiência e vínculo com o território dos Campos Elíseos, as medidas aqui apresentadas têm grande aderência. Mas, certamente, elas deveriam ser estendidas a todo o conjunto da população em situação de rua da cidade, assim como para diversas cidadãs e cidadãos que vivem em moradias com condições precárias.

    Para além das medidas emergenciais aqui exigidas, é importante afirmar que também são necessárias ações mais consistentes, de longo prazo, capazes de reverter a situação atual de extrema vulnerabilidade em que esta população se encontra.

    O respeito pela diferença e a diversidade tornam-se fundamentais para avançarmos em uma ideia de cidade que contemple as necessidades e desejos de seus cidadãos. Políticas públicas de cuidado, proteção social, habitação, cultura, entre outras, devem dialogar com a perspectiva de valorizar a vida comunitária que existe em cada lugar.

    Nesse sentido, nós já produzimos o plano urbanístico e social Campos Elíseos Vivo, desenvolvido pelo Fórum Aberto Mundaréu da Luz, que aglutina propostas focadas para os Campos Elíseos, mas que também poderiam ser adequadas e implantadas em outros territórios. Trata-se de uma alternativa concreta que, em tempos de pandemia pelo coronavírus, pode ser uma ferramenta potente de proteção à vida das pessoas e que nos auxilia a experimentar uma cidade mais participativa e inclusiva, que cuide de todas e todos.

    Assinam essa carta:
    Ação da Cidadania
    A Craco Resiste
    Centro de Convivência É de Lei
    Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
    Cia. Mungunzá de Teatro
    Comissão de Direitos Humanos OAB-SP
    Conectas Direitos Humanos
    Clínica de Direitos Humanos Luiz Gama
    Emau – mosaico
    Fique Vivo Clínica Social
    Fórum Aberto Mundaréu da Luz
    Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas – INNPD
    Instituto dos Arquitetos do Brasil – São Paulo – IABsp
    Instituto Luz do Faroeste
    Instituto Pólis
    Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade – LabCidade FAUUSP
    Laboratório Justiça Territorial – LabJUTA UFABC
    Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento – Pimentalab/Unifesp
    Teatro de Contêiner
    Observatório de Remoções
    Movimento Nacional de Direitos Humanos de São Paulo (MNDH-SP)
    Núcleo de Defesa e Direitos Humanos da População em Situação de Rua – SP – NDDH -SP

  • Lab_ Zona de Contágio

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    Laroiê!

    salve o mensageiro!

    \”Nós, que pensamos em “ideologia”, somos vulneráveis. Nós não possuímos os saberes pertinentes para identificar e compreender os dispositivos de captura e de produção de impotência. Ora, lá onde se pensa que os feiticeiros existem, aprende-se a reconhecê-los, a diagnosticar seus procedimentos, a se proteger deles, e ainda a contra-atacar\” (I.Stengers). 

    Zona de Contágio é um laboratório situado, prática coletiva de uma ciência do contato implicada em habitar a pandemia COVID-19 como um acontecimento: \”um acontecimento está no interior da existência e das estratégias que o perpassam\”. Ele surge como uma plataforma de convergência entre pesquisadorxs-ativistas cujo trabalho de investigação viu-se forçado a pensar com a intrusão viral. Uma encruzilhada.

    O vírus é a entidade estrangeira que fala pelo nosso corpo, através dele, de sua vulnerabilidade e estupidez. Fala que nossas noções de “política” e de “progresso” ou “civilização” são débeis, inócuas. Faz com que sintamos a febre da Gaia Criatura como resposta imunológica às simplificações ecológicas e biológicas produzidas pelos modos extrativistas que seguem fazendo deserto sem nome do “crescimento econômico”, “desenvolvimento”; que seguem produzindo muros, cercas, desejo de segurança e separação. 

    O medo da contaminação como forma de governo das vidas sempre foi a principal bio-tecnologia colonial,  atualizada pelos regimes autoritários modernos. Tecnologias de vigilância são convocadas ao controle epidemológico; pessoas tomadas por um desejo de segurança profilática passam a “denunciar” outras pessoas que precisam fazer qualquer coisa na rua porque, às vezes, não se tem muitas opções. Outras começam a professar o “Estado Forte” como forma de contenção – como se não nos bastasse a força do que já temos. Fala-se em “Guerra”, mas é importante responder: queremos a restituição da vida em sua possibilidade erótica, não somos os seus soldados!

    Estamos na encruzilhada Hobbes x Espinosa; o Estado e a hipótese do Comum!  O momento em que desejamos que o Estado tome medidas de exceção de controle populacional em nome da segurança sanitária, é o momento em que renunciamos à nossa potência de cuidado da saúde coletiva. Seremos capazes de construir alternativas com nossa inteligência coletiva? Como ativar o Comum, a potência de produção da saúde entre todos, promovendo vínculos solidários de cuidado coletivo? Como infraestruturar as estratégias, dispositivos, tecnologias, diferenças, práticas e conhecimentos que possam dar lugar a essas formas de vida?

    A natureza do poder se modificou de tal forma que hoje confunde-se com a própria vida. Está na paisagem da cidade e suas infraestruturas, nas centenas de dispositivos que conduzem nossa atenção, localização, nas catracas, na produção dos desejos e das frustrações; nas centenas de outros dispositivos que nos conduzem à novas formas de desempenho; novas formas de concorrência.

    Os arranjos sociotécnicos ao mesmo tempo vigiam e controlam toda possibilidade de fuga com outros inúmeros dispositivos de neutralização preventiva. A algoritmização da vida bloqueia qualquer possibilidade de imprevisto, de acontecimento e abertura. O poder se organiza de forma imanente à vida e sua expressão de exterioridade é apenas uma expressão performativa e mais visível dele – ainda que nos pareça mais confortável imaginar que o Poder está lá, sentado em uma cadeira. \”Uma perspectiva revolucionária já não tem a  ver com a reorganização institucional da sociedade, mas com a configuração técnica dos mundos\”. Na metrópole, assinala o Conselho Noturno (2019), o que encaramos não é mais o velho poder que dá ordens, o poder que localiza-se desde uma exterioridade, mas uma forma de poder que logrou constituir-se como a ordem mesmo desse mundo. \”A metrópole é o simulacro territorial efetivo de um mapa sem relação com nenhum território\”

    Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de corpos neoliberalizados, Zona de Contágio convida ao diálogo praticantes que desejam tensionar as modernas e habituais fronteiras entre ciência e política; entre corpos e pensamento. Assumir nossa debilidade existencial como ponto de partida para pensar os deslocamentos do político. Pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outro lado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”; encontros. Ciência de contato. Saber qual território habitamos, qual é a terra que pisamos quando falamos \”cidade\”, quais as relações que a constituem, quais são os saberes desautorizados, os saberes sujeitados, os saberes das lutas que desejamos convocar? Uma ciência objetora de tudo que nos envenenou: produtividade, crescimento, competição, originalidade. Uma ciência de combate que acontece entre corpos e suas diferenças.

    Com o acontecimento COVID-19, o Laboratório Zona de Contágio instaura-se como um dispositivo de pesquisa e intervenção na medida em que a produção coletiva de conhecimento sobre as atuais possibilidades de fabricação de uma vida não-fascista torna-se urgente. Se o fortalecimento de governos autoritários já era uma ameaça à vida comum, a intrusão viral potencializa a disseminação de uma cultura imunitária e securitária de contornos fascistas no tecido da própria vida social.

    A crise é maior, é total. Ela nos faz pensar muito concretamente sobre que vida estamos vivendo, qual vida queremos viver  – o vírus, como intruso, fabrica uma das maiores bifurcações da história: a vida tomada como forma securitizada, protegida, entretida, mobilizada para destruir “inimigos”; mas do outro lado, a vida em seu excesso, como forma erótica de habitar o mundo que não queremos perder; uma vida febril que sabe que a liberdade é também interdependência, risco, confusão, travessias. Exu.

  • corpo-como-risco

    por: Alana Moraes

    Em 2018, Bifo falava nessa entrevista com Amador Savater que voltar a nos entediar era a \”última aventura possível\”.

    Bifo parte de um diagnóstico difícil sobre nossos tempos. A intensidade contemporânea das mediações tecnológicas digitais produziu uma verdadeira \”mutação antropológica\” das nossas sensibilidades e percepções.

    Nesse novo regime, o corpo do outro nos aparece como \”signo\”, como informação. Além disso, a hiper-saturação de estímulos do modo conectivo vem produzindo uma \”paralisia do corpo erótico\”; a lógica do modo conectivo como matriz relacional depende de cada elemento permanecer diferenciado e interagir somente de uma maneira funcional, algoritmizada. Aqui a interpretação do sentido está reduzida (deve ser reduzida) a formatos mínimos.

    O que se perde é então a experiência erótica do corpo (que não tem a ver simplesmente com relações sexuais) mas, de uma forma expandida, ela é percepção e experiência do corpo do outro como continuação sensível do meu corpo. À essa matriz erótica-relacional, Bifo chama de \”conjuntiva\”. Ela se situa em uma região de ambiguidades: estar aberto ao encontro é também correr risco. O erótico atua em um sentido forte de contaminação, confusão, afecção, do equívoco, do não-entendimento.

    O modo conectivo, por sua vez, encontra uma nova zona de convergências e afinidades eletivas com (algumas) práticas neopentecostais populares e muitas das novas tecnologias securitárias de vigilância e militarização que se espalham pelo mundo. Trata-se aqui de produzir separações, condomínios, profilaxias imunitárias; a diferença deve ser exterminada, a confusão (exu!) deve ser ordenada. Dispositivos de subjetivações securitárias que fazem da vida uma imagem de pureza, proteção, segurança, blindagem.

    O ruído e a diferença devem ser contidos – as \”novas\” direitas emergem desse tecido biopolítico, não de outro; Uma reorganização tecnológica do dispositivo colonial e racializado de produção intensiva de fronteiras e zonas de morte.

    E aí chega a pandemia.

    O corpo-como-risco seria capaz de restituir a hipótese erótica para a vida? A condição de isolamento nos impõe a percepção radical de que o que nos falta é essa continuação sensível do meu corpo no corpo do outro; Um bloqueio profundo e mesmo cognitivo que nos leva também às formulações de Bateson sobre a mente: a mente é capaz de pensar a vida porque pertence a um mundo vivo; ela não está \”dentro\” de nós.

    Enfim poderíamos voltar agora a nos entediar como uma forma de recusa aos hiperestimulos, à mobilização constante de nossa atenção, uma \”terapia da angustia\”, uma abertura para o pensamento; o desejo do erótico como forma primeira de liberdade. Mas os dispositivos querem, ainda assim, nos organizar em mil formas de \”entretenimento – \”não pense na crise\”.

    Por outro lado, a contra-ofensiva imunológica parece ter encontrado agora terreno fértil: tecnologias de vigilância são convocadas ao controle epidemológico; pessoas tomadas por um desejo de segurança passam a \”denunciar\” outras pessoas que precisam fazer qualquer coisa na rua porque, às vezes, não se tem muitas opções. Outras começam a professar o \”Estado Forte\” como forma de contenção – como se não nos bastasse a força do que já temos. Fala-se em \”Guerra\”, mas é importante responder: queremos a restituição da vida em sua possibilidade erótica, não somos os seus soldados!

    A crise é maior, é total. Ela nos faz pensar muito concretamente sobre que vida estamos vivendo, qual vida queremos viver – o vírus, como intruso, fabrica uma das maiores bifurcações da história: a vida tomada como forma securitizada, protegida, entretida, mobilizada para destruir \”inimigos\”; mas do outro lado, a vida em seu excesso, como forma erótica de habitar o mundo que não queremos perder; uma vida febril que sabe que a liberdade é também interdependência, risco, confusão, travessias. Exu.

  • Coronavírus como a \”intrusão de Gaia\”

    por: Alana Moraes

    Isabelle Stengers há tempos vem apontando para a \”intrusão de Gaia\” como acontecimento que produz deslocamentos radicais na relação dos humanos com a Terra viva. Isso porque, ela segue, os Modernos elaboraram dois modos preferenciais de se relacionar com a Terra: alguns consideraram que ela era um recurso a ser explorado infinitamente, outros que era preciso \”protege-la\”, \”preserva-la\” como uma \”boa mãe provedora\”. Mas ela nunca foi enxergada como portadora de um poder assustador, incontrolável, destruidor e decisivo.
    \”Ofendida , Gaia é indiferente à pergunta “quem é responsável?” e não age como justiceira (…) Teremos que responder incessantemente pelo que fazemos diante de um ser implacável, surdo às nossas justificativas. Um ser que não tem porta-voz, ou, antes, cujos porta-vozes estão expostos a um devir monstruoso\”
    Pois então, o vírus é a intrusão dessa Gaia-criatura viva e furiosa que nos faz lembrar de um jeito doloroso que os inúmeros micro-organismos, vírus, bactérias, sempre fizeram parte de seu regime de existência. Nós, os humanos, não.

    Percebam que o que se faz evidente agora não é a \”fragilidade da Terra\”, \”do meio-ambiente\”, mas é a nossa fragilidade, nossa existência contingente nesse mundo. O confinamento nos deixa perceber/sentir que o \”lá fora\”, \”o mundo\” é parte do nosso corpo vivo, estamos emaranhados, misturados com a Terra, vivemos em uma simbiose obrigatória com muitas outras entidades e criaturas. De repente, tudo o que queremos é o contágio, a contaminação, não da doença, mas do mundo e de suas criaturas – porque pensamos e vivemos graças ao mundo e aos outros. Porque a vida acontece apenas graças ao fluxo contínuo dos materiais que a atravessam.

    O vírus é a entidade estrangeira que fala pelo nosso corpo, através dele, da sua fraqueza e estupidez. Fala que nossas noções de \”política\” e de \”progresso\” ou \”civilização\” são débeis, inócuas; Faz com que sintamos a febre dessa Gaia Criatura como resposta imunológica às simplificações ecológicas e biológicas produzidas pelos modos extrativistas que seguem fazendo desertos em nome do \”crescimento econômico\”, \”desenvolvimento\”; que seguem produzindo muros, cercas, desejo de segurança e separação.

    O medo da contaminação como forma de governo das vidas sempre foi a principal bio-tecnologia colonial, sempre atualizada pelos regimes autoritários modernos. Agora estamos nós personagens desse pesadelo da \”purificação\” cheirando à alcool gel, monitorando uns aos outros, capturados pela tecnologia de domesticação e controle mais eficiente e infernal dos Modernos: a domesticidade heteropatriarcal. Agora com as centenas de outros dispositivos virtuais que prometem nos \”entreter\”, nos livrar do desconforto desse \”acidente\” que é o fim do mundo.

    Mas existe, existirá um jeito de compormos outra vez com a Gaia-criatura e seu devir-monstruoso contra os \”porta-vozes\” daquilo que tem nos envenenado: o progresso, o crescimento, a mobilização permanente, os representantes seguros de suas decisões, os cientistas que tem medo de deixarem suas verdades correrem riscos?
    Parece que estamos agora obrigados a pensar.

  • Coronavírus e a #GreveHumana

    por: Alana Moraes

    A pandemia do coronavírus que se alastra pelo mundo torna visível muito rapidamente um conjunto de constatações perturbadoras e ao mesmo tempo fundamentais para visualizarmos rotas de fuga das máquinas neofascistas, seus pontos de saturação – seria possível uma conexão parcial com o vírus que, ao menos, nos fizesse pensar melhor?

    1) O problema da epidemia e seu poder de contágio se localizam em uma dimensão do transindividual: por mais cuidado que uma pessoa possa ter e mesmo que se esforce para seguir todas as recomendações entre lavar as mãos e evitar aglomerações (e é bom nos esforçarmos) – ainda assim, todos sabemos, estamos vulneráveis uns aos outros. Independente de opções ideológicas, nossa saúde depende de um acordo coletivo que terá mais sucesso quanto maior for o reconhecimento de nossa interdependência; Isso quer dizer que para produzirmos saúde não nos basta APENAS defender a saúde pública, precisamos entender como sustentar a saúde no Comum, entre todos.

    2) O coronavírus tem o potencial de fazer emergir outras comunidades não-identitárias (ou seja, que não sejam nacionais ou religiosas); Subitamente, somos todos potenciais participantes de uma comunidade de afetados pelo vírus; uma comunidade que pode emergir, portanto, de uma vulnerabilidade compartilhada;

    3) Essas duas primeiras dimensões tem emudecido os fascistas que não sabem bem como evocar um afeto de solidariedade que não seja a partir da língua do banimento e de suas fronteiras morais que hierarquizam os que merecem viver e os que merecem morrer – o corona nos faz ver que o mundo é isso que está entre todos (e não \”acima de todos\”).

    4) Os arranjos infraestruturais das nossas cidades dependem de aglomerações, grandes fluxos de abastecimento; nosso padrão de periferias depende de grandes deslocamentos em transportes lotados: a pandemia nos leva também à reflexão sobre os limites das cidades que estamos vivendo (o que alguns já sabem e vivem todos os dias) e, portanto, precisamos levar mais a sério os debates sobre DESMETROPOLIZAÇÃO.

    5) É preciso parar, mas o que significa interromper os fluxos de circulação no neoliberalismo hoje? Nesses momentos de crise nos damos conta como nosso corpo todo, disponibilidades afetivas, subjetividades, tudo parece estar conectado e trabalhando para o funcionamento da máquina. O vírus é uma sabotagem não-humana que fabrica um outro regime de sensibilidade. De repente nos damos conta de que somos um corpo e não portadores de uma \”cidadania\” global e desencarnada;

    6) No começo dos anos 2000 um coletivo artístico sugeriu retomarmos a ideia de uma \”greve humana\”:
    \”Este tipo de greve que interrompe a mobilização total a que todos estamos submetidos e que permite que nos transformemos pode ser chamado de greve humana, pois é a mais geral das greves gerais e o seu fim é a transformação das relações sociais informais que constituem a base da dominação\”.
    Uma greve mais que humana, talvez; interespecífica; porque o \”humano\” também já deu o que tinha que dar; uma greve que parte da consciência radical de que somos todos viventes e habitamos o mesmo mundo – e se gostamos mesmo dessa nossa condição de viventes, vamos ter que aprender a sustentar uma vida comum para além das autoridades governamentais e muitas vezes contra elas.