Zona de Contágio: laboratório pandêmico e saberes insurgentes.
Resumo: Zona de Contágio foi uma experiência de pesquisa situada realizada durante a pandemia Covid19. A partir de uma convocatória pública, constitui-se uma rede interdisciplinar, acadêmica e extra-acadêmica, de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do Brasil, interessadas em criar e sustentar um laboratório coletivo. No percurso dos encontros virtuais e seus interinstícios, foi elaborada uma trajetória de investigação sobre a pandemia como um acontecimento multiescalar: vírus, corpos, tecnologias, domesticidades, economias, saberes, resistências, saúdes, planeta. O laboratório enquanto um corpo-sensor coletivo visava constituir uma trama feita da confluência entre dois movimentos. Uma ciência dos dispositivos, produzida por uma cartografia sensível das manifestações dos novos regimes de poder e saberes sobre a vida tecnicamente mediada, a biopolítica, a domesticidade, a racionalidade algorítmica e neoliberal, a monocultura tecnocientífica. Noutra direção, uma ciência das retomadas, feita nos ensaios de novas formas de cooperação, lutas e acordos coletivos, nas alianças multiespécies e novas sensibilidades que inspiram a emergência e urgência de saberes e formas de vida que apontem para rotas de fuga do Antropoceno.
Referência:
MORAES, Alana; PARRA, Henrique; PEREIRA, Bru. Zona de Contágio: laboratório pandêmico, saberes insurgentes. São Paulo: Tramadora Edições, 2021. (978-65-00-32775-5).
Lançamento do livro Zona de Contágio: laboratório pandêmico e saberes insurgentes.
A publicação resulta de uma criação coletiva em rede de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do Brasil que participaram da investigação experimental \”Zona de Contágio\”, durante a Pandemia Covid19. Para celebrar o percurso e a vida entre todes, faremos uma transmissão do lançamento no Canal do Pimentalab Unifesp no Youtube.
Com ou sem diálogo, é inevitável nossa escolha pela ruptura com o modelo criado até aqui
Desde que essa pandemia teve início, ela provocou em mim algumas reflexões que na verdade já existiam e estavam sendo germinadas bem antes. Elas não haviam tomado coragem ainda de ganhar expressão. Em junho de 2020, quando fiz os primeiros contatos com a Zona de Contágio, um laboratório de trocas acadêmicas anárquicas que buscou unir seres estranhos e pensadores que questionam as novas práticas no plantationceno, as inquietações fonográficas sobre a nossa experiência foram ganhando as palavras. A pergunta que me fiz foi: e tudo isso não é fazer científico? Então o que estamos aqui refletindo sobre o nosso ser e estar no mundo não poderia, pois, contribuir para que a nossa [seres terranos] experiência possa ser transformada? Essas experiências compartilhadas sobre as muitas formas de habitar a pandemia refletem nossos questionamentos acerca dessa partilha.
Uma reflexão que me ocorreu desde que morei em São Paulo em 2019 é a discrepância de visão de mundo entre aquilo que a gente acredita como bem viver uma vida boa e saudável e aquilo que a gente de fato faz para ganhar dinheiro e pagar as contas. Parece-me tão incoerente. Vejo que há uma dissonância entre aquilo que eu acredito como importante para uma filosofia de vida e aquilo que o mundo capitalista, sua configuração tecnológica, as novas formas de controle sobre nossas vidas em formato algorítmico exige de nós o tempo todo.
Antes da pandemia da Covid 19 eu percebia muito as pessoas se vangloriando de serem workaholic, de viver em função do trabalho, de não terem tempo para si porque são tão bons funcionários [colaboradores de que?] e tão bons naquilo que fazem. Que acordam (isso quando dormem) e já estão conectados ao celular lendo as notícias, sabendo de tudo. Às 8h da manhã leram cinco ou seis jornais e entram no escritório já ligadas no 220V prontas para uma verdadeira guerra. Adrenalina no topo, pupilas dilatadas, um aceleramento sem fim. E não estou me referindo a uma cena de uma multinacional japonesa não, estou falando de um escritório de uma ONG que tinha cinco pessoas comigo. Agora, você pense, se uma empresa que se propõe a ser um ambiente mais humanizado, que se dedica a causas sociais e temas coletivos impõe esse ritmo a alguém, imagina outros segmentos da nossa economia.
Então, naquele tempo, para estar presencialmente em um escritório às 9h ou 10h da manhã, desde o momento que você acorda (muito cedo) sua vida já está dedicada totalmente para aquela função. Afinal, você precisa tomar seu café correndo, um banho rápido, vestir uma roupa adequada, sair de casa em passos rápidos, acessar um transporte público que, se for um ônibus de linha reduzida, irá passar só de hora em hora e assim com muito esforço consegue não se atrasar os cinco dias da semana, de segunda a sexta. Dentro dessa forma-cidade onde os descentramentos do eu-humano parece regra, você já começa a se dedicar para o seu trabalho desde o momento que abre os olhos. Aquele tempo de deslocamento não é destinado a você e sim ao trabalho. Em seguida, você vai passar as próximas cinco ou seis horas de sua vida sentada na frente de um computador, convivendo mais com aquelas pessoas do que o tempo que você vive / ou viveu com a sua família.
Esse modelo é completamente obsoleto. Ele não colabora em nada com a nossa saúde mental, física, emocional e espiritual. É um modelo doentio que não permite respirar. O ser humano se acaba em um modelo como esse. Definha. E corremos o risco de ao criticar esse modelo, sermos taxados de incompetentes, de vagabundos, de gente pouco dedicada, um profissional que não merece reconhecimento em última instância. “O mundo é assim mesmo” nos dizem, “acostume-se com a vida adulta”, falam. O que nos gera culpa, baixa autoestima, depressão e medo de perder o trabalho – o que é uma realidade cotidiana, diga-se de passagem. A instabilidade no trabalho parece algo que faz parte da moderna plantation, nos mantém domesticados, dóceis, sempre disponíveis dia e noite, alertas! Isso não me parece nada saudável. Chegamos então ao final de nossos dias exaustos. Sem energia para ler um livro, ter novas ideias, se inspirar em escrever um poema, uma peça de teatro, criar uma nova receita culinária ou fazer a política do vivente. Estamos sugados. Eu ainda me considero sortuda por escolher e conseguir trabalhar há alguns anos com causas sociais que me preenchem de alguma forma. Nem todo mundo percebe o mal que esse tipo de vida provoca e a rotina lhes causa resignação. As pessoas estão à margem dessas reflexões totalmente inseridas em contextos sociais e econômicos que não lhes permitem sequer refletir. Tanto pela falta de condições subjetivas – ausência de presença, como também pelos excessos da futilidade, do marketing, da publicidade, da influência de influenciadores, o que é uma grande enganação. As pessoas estão tomadas pela vontade de mostrar aos outros aquilo que não são. Sabemos que existem algumas pessoas que têm voz em nossa sociedade, precisamos chegar até elas para chamar a atenção para aquilo que importa no sentido amplo a fim de preservar a vida coletiva em comunidade e a dignidade para todos. É preciso destacar aqui que “aquilo que importa” para uns não importa nada para outros. Por isso estou marcando bem esse ponto.
No entanto, pensando na lógica das redes sociais, apenas a título de entendimento, existe também um monte de gente que não tem conteúdo. Não que eu concorde com a lógica de pensar as pessoas como “empresas de produção de conteúdo”, mas pessoas que não têm o que dizer e que estão falando pelos cotovelos se aproveitando dessa “permissão” que lhes é dada nas redes [in]sociais justamente porque a gente vive em um mundo pautado por algoritmos, pautado por likes, pautado por tecnologia sem propósito, no consumismo.
Eu também consigo traçar um paralelo entre o capitalismo [seu modelo de vida obsoleto], o planeta Terra e o corpo humano. Vejo a Terra como um ser vivo, dotado de memória, de vida que pulsa, que respira e transpira como uma planta ou como nós mesmos em nosso corpo humano, que é matéria cósmica, uma continuidade desse planeta Terra. Então, no mundo dominado por homens há tantos séculos, tornou-se natural mutilar a Terra planeta, mutilar a terra onde se planta alimentos (cada vez mais cheios de veneno), naturalizou-se explorar a natureza, avançar sobre esse corpo vivo assim como se faz com os corpos que foram tornados vulneráveis a tamanha brutalidade, os corpos femininos de mulheres e de indígenas e de negros e de pessoas não normativas. Ela a Terra, é mais uma mulher disponível para ser submetida às vontades masculinas, ao lucro, ao capital.
A Terra como ser vivo também precisa de descanso assim como nós. Corpo humano e corpo Planeta Terra como uma coisa única. Somos um mesmo corpo. Toda a vida está interligada, assim como estão as fases da lua, os ciclos das estações, os ciclos femininos que sangram e se renovam. A lua interna de cada mulher com a lua externa da Terra. A lua dentro de mim.
A gente se deixou enganar, a gente se envenena, a gente se descolou de tudo isso e fomos desaprendendo e quanto mais ignorantes disso a gente se torna, mas a capacidade extrativista do senhor capital se fortalece, cria outras bases para além da economia, cria suas facetas mais nefastas como o machismo e o racismo. Nossa ancestralidade humana respeitava a terra, a água, o ar, o fogo como elementos sagrados, como forças da natureza que merecem nossa reverência. Nada está existindo para nos servir. Estamos aqui para comungar enquanto o sol nos permite. Se tem um ser vivo que ainda reserva essa memória bem viva dentro de si mesmo, esse ser é a mulher, com ela nasceu um portal que é a única maneira de chegar a esse mundo.
E de onde todos nós viemos. Sem exceção. A Mulher [fêmea, organismo feminino] é a única capaz de ligar esse mundo a outro. É através de uma mulher que os humanos nascem, é o útero de uma mulher a primeira morada de todos os seres humanos. No entanto, homens ainda insistem em violar tudo isso e de diversas formas diferentes, inclusive fazendo ao longo de tempos imemoriais as próprias mulheres se esquecerem da importância que essa conexão tem. E o que nós estamos fazendo? A gente se violenta diariamente para fazer parte da nova plantation tendo essa desconexão consumista como modo de vida. Estamos nos esforçando para fazer parte de um sistema obsoleto que por si só já é violento, ultrapassado. Atrasado.
Para além da pandemia de Covid-19 nos colocar, todos os países do mundo, em um lugar de muita precariedade e de muita pobreza porque acirrou as desigualdades sociais que já eram latentes, ao invés de iniciarmos um processo de derrubar as fronteiras que nos separam e avançar no entendimento comum de que tudo está conectado e que todos somos um só corpo chamado humanidade, organismo vivo que habita globalmente, estamos indo na contramão disso. Corremos risco de jamais nos ver como terranos, cidadãos globais do Planeta chamado Terra e assim acirrar a demarcação das fronteiras justificando ainda mais o preconceito contra o diferente, fortalecendo ainda mais essa sociedade persecutória que criamos ao vivenciar de modo deturpado os valores do cristianismo. A gente não entendeu nada.
Com isso criamos disputas entre nós mesmos, criamos a escassez, a imposição da uniformidade, a intolerância. Nesse instante existe uma guerra de mundos, um momento em que temos de decidir: ou seguimos escolhendo furar o olho do outro, ou aceitamos que estamos diante de uma grande encruzilhada, que temos dois caminhos diante de nós e precisamos decidir e, com isso, realizar uma grande ruptura com o destino de aniquilação que a gente vem escolhendo.
Podemos escolher o caminho da vida plena, do respeito ao nosso corpo, do respeito à natureza e à nossa ancestralidade, o caminho da compaixão e da solidariedade para com o nosso semelhante. A pandemia acelerou o prazo que a gente tinha para fazer essa escolha. Não é mais daqui a 10 anos, não é mais daqui a 20 anos. É já. Existe uma mudança que é de cunho espiritual. Existe uma mudança que é de cunho filosófico. De cunho político alicerçada em outra visão de mundo que tem muito a ver com a fala de Ailton Krenak em seus discursos e no livro ‘Ideias para adiar o fim do mundo’.
Afinal, nos próximos anos é quando vemos estabelecer as bases para nossa permanência no planeta ou vamos assistir a nossa aniquilação. Não vai ter bunker para nos salvar. Não vai ter região tropical que vai sobreviver, embora muitos pensem que tudo bem exterminar as Américas, destruir os trópicos e acabar com tudo, pois os ricos irão para a Suécia, já que a Suécia vai virar a nova Copacabana! É a finitude do nosso mundo como a gente conhece. A desertificação das florestas tropicais, a poluição completa das águas limpas e nascentes, o alimento cheio de veneno que mata aos poucos, a falta de chuvas, novos vírus aparecendo. É pavoroso. O acontecimento pandêmico nos deslocou de onde estávamos de modo inevitável ainda que muitos de nós estejamos desesperados pelo retorno a certa “normalidade” que jamais voltará a existir, pois causou um ruído nas entranhas mais profundas de nossa existência.
A Rádio Terrana é um podcast do Pimentalab da Unifesp e do coletivo Tramadora, um programa sobre ciências terranas, tecnopolíticas e experimentações em tempos de catástrofes. Encruzilhadas sonoras entre práticas científicas, ações de retomada e lutas pelo Comum. São Histórias de experimentações que nos convocam a pensar juntas sobre possíveis futuros de transição societal. O podcast ensaia diálogos com ativistas/lutadoras implicadas com problemas concretos em práticas políticas, territórios, corpos e pensamentos de retomada e também com cientistas/pesquisadores que realizam deslocamentos nos modos de produção de conhecimento, conectados com as urgências impostas pelo antropoceno.
Episódio 1 – A Terra do Redor: o chamado Guarani para outras práticas de conhecimento
Conversamos com Jerá Guarani, liderança Guarani Mbya da aldeia Kalepity, nas Terras Indígenas Tenondé Porã, em Parelheiros, extremo sul da cidade Sao paulo; e com Lucas Keese, que é pesquisador, antropólogo, mas que há muito tempo é parceiro da luta Guarani, ajudando a articular ações no território, tecendo encontros e lutas. Vamos falar um pouco sobre os limites das formas de produção de conhecimento em nossas escolas e universidades a partir de uma perspectiva terrana que vem sendo elaborada e cultivada no território guarani mbya. Como a luta e os modos de existência guarani interpelam o colapso civilizacional produzido pelo mundo dos brancos? Há mundos por vir?
Ficha Técnica:
Equipe Pimentalab e Tramadora: Alana Moraes Bru PereiraGustavo LemosHenrique ParraJessica Paifer Entrevistados: Jera Guarani, Lucas Keese Edição, mixagem, e trilha sonora: Gustavo Lemos Produção:Pimentalab (Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento, UNIFESP): https://www.pimentalab.net Coletivo Tramadora: https://www.tramadora.net Apoio:Rede Lavits (Latinoamericana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade) e Fundação Ford: https://www.lavits.org
texto produzido a partir das notas coletivas da conversação realizada na Zona de Contágio em torno do tema \”Domesticidade\”.
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\”A experiência pandêmica nos proporcionou o colapso sincrônico entre as escalas planeta-casa-corpo. Fronteiras e divisões que pareciam fixas se atualizam e se reconfiguram; revelando sua falácia e artificialidade. O contágio, o transbordamento, as interdependências estão por toda parte. A situação nos convoca a inventar outros corpos, outros regimes de sensibilidades, outras formas de ser e conhecer. A suspensão inicial da rotina, nos primeiros momentos da pandemia, visibilizou a fina trama das infraestruturas das cidades, da casa e dos trabalhos invisíveis que sustentam a vida comum. Com a continuidade da situação pandêmica, a organização da vida previamente existente se intensifica através de velhos e novos dispositivos de governo da nossa existência. Entre o mito da casa-refúgio e o vivido na casa-fábrica-escola-prisão há uma pletora de experiências com os mecanismos de controle mas também de criação de novos ritmos, desvios, alianças e insubmissões: devir-selvagem. A mistura corpo-casa-planeta cria novos conflitos sobre velhos divisores. Queremos descrever e narrar as práticas pelas quais o tempo de trabalho e o tempo de não-trabalho torna-se cada vez mais indistinto; contar como o público-estatal e o privado-capitalista se organizam na trama casa-família-estado-corporação; Que corpo a casa faz? Como a casa se torna uma rígida fronteira que separa o “dentro” do “fora”? investigar as atualizações da monocultura – plantation – em arquiteturas e formas de habitar que produzem o regime heterossocial, seus corpos, seus funcionamentos generificados; sentir como o desenho da forma-cidade, suas infraestruturas e assimetrias se manifestam a partir de uma experiência onde morar já não é a mesma coisa.\”
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Casa e monocultura, casa e plantation estão ali na mesma paisagem. O doméstico não é só o âmbito do lar, da casa. É também quando como falamos dos animais que são domesticados. Doméstico vem de domos – domínio – é uma forma de controle patriarcal sobre os corpos das mulheres, dos animais, etc. Uma das coisas principais pra mim é uma desromantização do lar. Parece que fica inviável aquele sonho do american way of life, a concreto espacial do american way of life. No primeiro momento da quarentena houve a possibilidade do ficar em casa, ficar quieto em casa; mas logo veio a avalanche do que já era essa sociedade. Seguimos trancados em casa, mas ainda reproduzido tudo o que já era ruim dos nossos modos de vida. Enfim, eu só queria botar pilha na importância da desromantização. O discurso patriarcal romântico sobre o que uma casa, um lar, ruiu como uma casa que desmorona. Pra quem a casa era romântica? Parece que todo mundo já sabia dos limites. Para mim, a casa era um descanso da atenção devido a saturação do que é estar na rua. E é um descanso da atenção por conta do seu ritmo repetitivo, o conhecido gera um conforto. Diante das diferentes sensibilidades, o quanto o corpo pode aguentar (nisso de estar sujeito ao tudo do fora)? Fiquei pensando sobre o que é não ter a casa? E uma das perguntas que eu sempre ouvi é \”por que será que ele não volta pra casa? E vou partilhar uma das falas do meu irmão: – \”eu posso tá numa pensão no centro, em algum albergue. E ai eu me levanto as três da manhã, e vou para o Terminal Bandeira, que foi o primeiro lugar que eu dormi e me senti seguro foi o Terminal Bandeira\”. Então é uma volta pra casa no Terminal Bandeira, as três da manhã quando ele não consegue dormir. E antes de terminar minha fala, vou falar do pikachu, que é um pokemon não domesticável, que não entra nem fodendo na pokebola, ele fica com o Ash pela amizade. A relação do Ash com o Pikachu não é de domesticação, é de amizade. Assistam!! Vou puxar um outro fio: pensar a domesticidade em outros lugares além da casa. A domesticidades está em outros lugares, assim como a casa. Como as configurações da domesticidade se constituem nas nossas relações com o mundo, com o trabalho? A pademia nos ajudou a revelar as tramas que organizam a cidade, pois a domesticidade opera uma partilha do mundo, um arranjo de assimetrias, divisões, que são generificadas, racializadas. O que é necessário para se manter uma casa no contexto da pandemia? Pra muitos está claro que a casa não é o refúgio, mas o lugar de conflito. Mas é essa relação da casa com o mundo. Como essa forma casa na cidade, se apresenta como imagem (ideológica) de uma célula da autonomia, da autossuficiência e independência. Um márcio, um homem em situação de rua, contou pra gente que ele estava com muita saudade dos filhos, e ele falou que não conseguia recuperar essa relação com os filhos depois que ele ficou desempregado e foi morar na rua. Porque ele não tinha mais nada a oferecer para eles… A domesticidade é a maior produtora dos corpos e gêneros. Pensar em casa é pensar quem pode morar onde e suas articulações com o mercado imobiliário e o capitalismo financeiro. A dominação, a domesticação e o amor estão firmemente entre-laçados. A casa – o nosso doce, familiar e seguro lar – é onde todas essas dependências intra e interespecíficas atingem o auge da saturação. Por mais prazeroso que seja, talvez essa não seja a melhor ideia para uma vida multiespécies na Terra. Considere, ao invés disso, a abundante diversidade que margeia as estradas. Ou considere os cogumelos. reivindicação de boa parte do movimento lgbt é a moradia. viver bem, morar bem. a casa é uma invenção contra ecossistema. casa como lugar onde habitam outros seres. V.Wolf – \”um teto (quarto) todo seu\”, onde se discute espaços de autonomia de pensamento.Também penso na reinvenção da domesticidade feita por pessoas LGBT nas Houses, como uma forma de criar outras relações.Também fiquei pensando na distinção entre o público e o privado, que organiza o modo como pensamos a domesticidade. E como essa distinção não funciona em outros contextos, como por exemplo, aqui onde eu moro, no sul de Minas, no interior. Dá para pensar a casa desconectada da domesticidade? O que acontece com a casa sem a domesticidade? Essa domesticidade resiste à ausência de cidade? Há uma perda muito qualitativa da experiência urbana que parece estar em curso. Fico pensando no terreno baldio, num devir-casa. Baldio vem do Árabe, que significa inútil, que não existe para a produção, não existe para desempenho. Meu vô era desses que entra num terreno baldio e plantava pra eles e pras pessoas ao redor. Chegou, plantou! A pandemia me fez pensar naquela frase: \”takes a village to raise a child\”, e de repente, em quarentena, com dois filhos pequenos, me perguntei: \”cadê minha village?\” Toda a casa tem uma mulher lá, sustentando o trabalho da limpeza, com os filhos, com os corpos. Eu acho muito legal trazer a figura da mulher para pensar na domesticação da vida. Uma cigarra apareceu no meu dedo. Veio fazer morada aqui no meu dedo. Uma tese que orientei – a Experiencia da maternidade em Recife – e que fala da experiencia da maternidade no Brasil, evocava a idea de maternidade em rede. Ou seja, no meio popular, a família clássica, por uma série de razões, as mulheres funcionam pra cobrir umas as outras para cuidar das necessidades das crianças, elas funcionam em rede. Tanto a questão do afeto, responsabilidade, uma serie de estratégias de sobrevivências. Dissociar o que é a experiencia da classe média, e do que são outras experiências de organização da experiência da casa. Domesticidade tem aparagens muito variadas. Experiências atravessadas por dinâmicas, muito diferenciadas. Concordo com você. Mas de qualquer maneira é uma rede de mulheres que lidam com essa experiência. Nem sempre, você tem historia dos novos pais, o impacto do movimento feminista, mais de quarenta anos do movimento feminista. Agora, na classe média tem a figura dos novos homens, dos novos pais, eles não são estáticos. Eles aprendem a gostar de criança, a gostar de cozinhar, etc. Esvaziar o ralinho é parte do lavar a louça. O ralinho é demarcador de níveis de participação. Isso não é universal. A heteronorma nem sempre se replica na roça. A imagem da roça como modelo arcaico-patriarcal, é nada mais que a visão da classe média para a roça. E que existem caminhos outros nessa forma de cuidado. Dentro da configuração ocidental, na Grécia esse modelo de cidade é modelo da pólis, que dentro dessa configuração política, a casa, a mulher e a infância, são excluídas dessa estrutura política. Lembrando do Henrique falando dos arranjos, a molecada aqui gosta de skate. E a cidade não é a mesma pra quem anda de skate. Um banco, um corrimão ganha outra forma. Há toda uma filosofia, um uso implicada no role de skate da cidade. Interessante, que com o skate isso fica bem mais claro, dos usos comuns. Mas a impressão que eu tenho é de que cada atividade diferença adicionam camadas à experiência da cidade. Ou complexidade a ela… O corpo também passa por essas \”incrementações\”. Sobre a domesticidade, eu tava pensando no próprio processo educativo, eu percebi o quanto eu fui de uma maneira domesticada nesse sistema de ensino, de ir pra escola, fazer trabalho, biblioteca, de tal forma que não ter uma sala de aula é muito louco, pensar essa capacidade de adaptação. O que é uma casa? E eu pensei no terreiro. E o terreiro é dentro da casa da minha vizinha, mesmo ela tentando separar. E isso muda completamente a rotina da casa, não só nos níveis mais materiais. Parece que tem uma implosão do público e do privado. Acho que a Angelina pensa numa coi
sa crucial assim, que essa noção de casa é uma experiência de um grupo de consumidores de classe. Como é pensar a domesticidade também em outras realidades, outra organização? Na etnologia ameríndia, a categoria domesticidade não é muito usa, mas domesticação sim. Nos mundos ameríndios tem algo interessante que é uma separação entre ação e agente. O agente não é aquele que \”realiza\” a ação. Também tem algo bonito nos mundos ameríndios é que é uma espécie de radicalidade da consubstancialidade. Uma rede de parentesco é uma rede de gente que pensa uma na outra e pensar é cuidado. Os ameríndios fazem parentes pensando neles, e pensar é compartilhar comida, compartilhar uma mesma casa, estar junto. E em muitos idiomas indígenas, pensamento é sangue e pensamento, de fato, é o que circula, não é algo que fica no cérebro. Então fazer parentes é compartilhar sangue/pensamento. A domesticidade também foi uma forma da colonialidade organizar as relações de parentesco. Ela permitia a separação entre os filhos legítimos e ilegítimos dos homens colonizadores (e isso permitiu, como fala o Mbembe, uma experiência de um gozo perverso por parte dos homens colonizadores). Um dos desafios de pensar a domesticidade, portanto, é pensar no que a gente reproduz, quando nos reproduzimos. Há uma comunidade mapuche sexo-dissidente que diz: \”Eu e minhas irmãs não vamos nos reproduzir, mas pensamos em como continuarmos\”. Isso é uma reflexão bastante importante. Pensando agora no que você disse, Bru, eu li hoje, que 7 entre 10 estupros acontece dentro de casa, por familiares. Faz a gente se questionar que casa é essa, que parentesco é esse? 1/3 das violencias registradas acontece dentro da familia. A familia é um lugar de produção de violência significativo. Alimentação como convite da natureza para migrar de casa, de corpo em corpo… Ninguém na terra tem uma casa. Ouvindo Lucas e Bru, parece que a linguagem não bate. Os povos nipônicos que vieram para o Brasil, nunca foram considerados indígenas, mas minha avó nasceu na Hokkaido colonizado, mas ainda sim numa aldeia do povo Ainu. Ela dizia: O império não gosta da gente. Eu não sei muito discernir, o que é ainu, o que é japonês; o que é ocidental em mim mesma. Depois de pedalar até a casa do meu pai eu me joguei na grama, e fiquei pensando sobre treinar o corpo na carne da grama, da aranha, da ancestralidade, etc. Essa língua ameríndia-nipônica é evitar a se deixar subordinar por essa linguagem ocidental. Um agenciamento de si para o outro e não o contrário, a melância me ensina a ser carne. Vou puxar outro fio de conversa. O pessoal da arquitetura, que é muito bom em inscrever de uma maneira as normatividades em concreto. Nessa trama de casa-corpo-planeta, a cidade é um diagrama de como essas coisas se organizam e permite a gente se defrontar com questões do capitoloceno, antropoceno e das plantationcenos. E pensar como o que parecia um momento de reflexão no começo da pandemia e como parece que com o tempo ficou que a casa-cidade desorganizou nossas formas de responder à situação pandêmica. Mas também é importante pensar sobre as muitas redes emergiram e avançaram nesse contexto, para investigar essa forma casa-cidade. Eu tinha uma coleção de imagens dessas casa que tem estruturas muito diversas, pois não foram projetadas por engenheiros, arquitetos. A história do samba ajuda a pensar espacialidades outras. Saiu uma pesquisa que mostra que mais da metade da população de São Paulo quer sair da cidade. Também precisamos lembrar que habitar outros espaços que não a cidade, para nós que vivemos na cidade, nem sempre é muito fácil. Esse ponto nos ajuda a pensar na necessidade de não desmaterializarmos os processos, os corpos, as experiências quando investimos na necessária tarefa de desessencializar e desnaturalizar. Nossos corpos já estão moldados pela arquiteturas da cidade, e as outras arquiteturas, como as arquiteturas farmacopornográficas de que fala o Preciado. E isso talvez nos ajude a pensar nossas resistências, mas tbm sobre como certos corpos parecem se tornar mais disponíveis para as variações, para as mudanças.
Em nosso próximo encontro da Zona de Contágio, dia 3/12, às 19h, vamos conversar em torno do tema: \”Respirar e políticas do Vivente\”
Em seu último ensaio, Brutalisme, Achille Mbembe lança algumas pistas importantes para pensar o mundo de emergências confluentes em que vivemos hoje. Se a humanidade se constitui como força geológica planetária, ele diz, não podemos mais falar em \”história\”, mas, a partir de agora, toda história é necessariamente geo-história – incluindo a história dos poderes.
Mbembe chama atenção também para a dimensão molecular e química desse processo. A toxicidade, o filósofo defende, é uma dimensão estrutural do presente que afeta não apenas a terra, as águas, criaturas, mas também os corpos humanos. Visto por esse ângulo, a função dos poderes contemporâneos é a de, como nunca antes, tornar possível a extração. É uma \”dialética da demolição\”, da \”criação destruidora\” que alveja os corpos, os nervos, o sangue e o cérebro de humanos e outras criaturas: \”um gigantesco processo de despejo, remoção, evacuação forçada\”.
A asfixia também tem sido a arma das \”forças de segurança\” e policiais contra os corpos pretos; arma de contenção e administração de zonas de mortes. O mundo pandêmico, produzido pelas novas tecnologias e ciências da monocultura e do extrativismo é também o mundo \”balcanizado\” das grandes metrópoles, fabricado, por sua vez, por tecnologias racializadas de vigilância e extermínio. De George Floyde até João Beto Freitas; passando pelo mapa racializado dos que mais sofreram pela crise sanitária que vivemos: o que está em jogo é uma evidência escandalosa da impossibilidade de respirar.
A respiração é uma condição do vivente que revela sua mutualidade constitutiva: a inspiração de uma pode ter sido a expiração de outra. Desde uma perspectiva atmosférica não é mais possível conceber corpos individualizados, encerrados e acabados – o que constitui a comunidade sempre precária e instável dos viventes é uma delicada interdepedência ecológica em movimento e variações permanentes: só pensamos o mundo porque somos o mundo e somos o mundo quando respiramos com ele. Por isso, a impossibilidade de respirar pode também ser entendida como o esgotamento das possibilidades que o mundo colonial tem de permitir as tramas que sustentam a respiração dos viventes. Esse mundo está em combustão – diz Mbembe – cabe a nós nos implicarmos, em meio às cinzas e à fumaça, na tarefa da vida: a tarefa de investigar o que restou, o que está danificado, o que pode ser recuperado, o que precisa ser abandonado – e o que pode ainda \”vingar\”, como se diz das plantas. O que será necessário para retomarmos a terra e sua capacidade de sustentar a respiração? Como seria pensar uma política que expressasse uma nova sensibilidade subversiva a partir dessa comunidade instável e precária dos viventes? Quais coreografias de revoltas, lutas, pensamentos para que a força de conspirar – como respirar junto – possa ser retomada? Quais as novas conflitualidades que emergem a partir da criação de uma política respiracionista (e suas tecnologias e ciências) contra aqueles que asfixiam e interrompem a possibilidade ecológica da vida interespecífica com suas ciências, tecnologias e poderes de extração?
Conversações febris: Quinta-feira, 19 de novembro as 19hs
A intrusão viral covid-19 produziu uma série de atravessamentos e colapsos nos nossos modos de ser e estar no mundo. Colapsos mundificadores e modificadores de escala que nos lembram que mesmo entre tantos humanos, existem escalas que nos perfuram e nos invadem, escalas moleculares-bacterianas-virais-simbióticas-parasitárias, escalas que atrelam o menor dos organismos aos Estados nações, ao capitalismo moderno e suas inúmeras plantations, à vida nas ruas da cidade ao #FiqueEmCasa, ao aqui e agora.
Experimentamos também, junto ao luto (ou falta dele) de milhares de mortos pela covid19, uma incapacidade coletiva de habitar este acontecimento naquilo que ele nos interroga sobre as cumplicidades entre os diferentes regimes de poder (cispatriarcal, colonial, racista, antropocêntrico, capitalista, …); e naquilo que ele nos incita acerca dos modos pelos quais somos parte do problema a ser respondido.
Que agora, boa parte do debate público esteja limitado aos conflitos em torno da produção da vacina, é um sintoma de que os sentidos da vida (individual e coletiva) neste planeta estão reduzidos a um problema biomolecular, cujo tabuleiro está sendo construído e definido na confluência da Ciência&Tecnologia Corporativa e das disputas geopolíticas, uma aliança capitalista infernal entre corporações privadas e estados nacionais.
Interrogar a crise sanitária-ambiental como um problema da nossa civilização, implica em insistir na radicalidade das relações de interdependência entre diferentes processos que participam da criação do fenômeno covid19.
É preciso considerar as longas cadeias produtivas e seus arranjos sociotécnicos: do vírus à plantation transnacional; da extração de minério colonial para a confecção de chips e celulares; do agro-tôxico-transgênico-negócio ao prato na mesa; das infraestruturas de comunicação, as mediações algorítmicas e as interfaces da modulação existencial; das biomoléculas à informatização da vida; das turbinas de Belo Monte, das vidas submersas à tomada 110V de nossas casas.
Retomar a vida, reconquistar a possibilidade de um futuro não programado, florescer mesmo ali onde o solo é radioativo, acontece ali onde se cultiva e se avança tateando, ao mesmo tempo inventando, sustentando e defendendo um território comum. Para acompanhar essas tramas e desvios, nutrimos uma ciência dos dispositivos que investiga os poderes e suas técnicas, ao mesmo tempo em que praticamos uma ciência das retomadas, através de perguntas de nos implicam com os grandes problemas e que ampliam nossas potência de imaginar, desejar e criar.
Em nossos fazeres cotidianos e em ações de diversas coletividades, há diversas experiências de tensionamento da monocultura técnica e tecnológica que organiza nossas vidas. Há uma pluralidade de éticas-estéticas (decoloniais, antiracistas, contra-heterossocial…) que se atualizam em formas de vida, e cada uma delas é indissociável da produção e da sustentação de um mundo comum e suas infraestruturas. Há, portanto, cosmotécnicas distintas que produzem mundos diferentes.
Cosmotécnicas e tecnopolíticas: investigar e narrar as experimentações e lutas de fabricação de mundos.
Talvez o fato mais significativo seja nossa incapacidade – pelo menos provisória – de imaginar um mundo comum (Latour e Charabatsky). Há imaginários em disputa no horizonte de uma pós-pandemia. Rosana Pinheiro Machado et al resenharam aqueles que despontam através da leitura da imprensa mainstream internacional (Piauí online). São imaginários high-tec, que aprofundam as desigualdades do mundo com estratégias de proteção acessíveis apenas aos que podem pagar. Estratégias que mudam tudo para que nada mude. Mas outros imaginários, orientados para a proteção do planeta, imaginários “terranos”, também estão presentes na disputa. A consciência ambiental parece ter avançado durante a pandemia. Eventos climáticos impressionantes estão ocorrendo em países que elegeram negacionistas radicais, como Trump e Bolsonaro, e eles coincidem com a crise pandêmica. Os imaginários “terranos” propõem modos de vida mais modestos, mais austeros, incompatíveis com a lógica do consumo ilimitado que pauta o capitalismo contemporâneo.
Das conversas que tivemos este ano, tenho vontade de retomar dois tópicos. O primeiro é o que surge da consciência de um vínculo entre pandemia, emergência climática e intoxicação dos organismos pela indústria química; o segundo interroga as condições políticas de existência de uma “universidade terrana”, microcosmo e possível vetor de construção de uma “sociedade terrana”.
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20 X 2020
Sobre o primeiro tópico, foi talvez o artigo de Luiz Marques (“A pandemia incide no ano mais importante da história da humanidade. Serão as próximas zoonoses gestadas no Brasil?”) que mais claramente afirmou essa tripla relação, sublinhando também a singularidade do momento que estávamos vivendo: o ano da pandemia, diz ele, é “o do mais crucial ponto de inflexão da história humana”. Ponto de inflexão porque todos os estudos científicos apontavam para o fato de que 2020 seria o ano-limite para um recuo do crescimento dos gases de efeito-estufa, antes que consequências catastróficas da emergência climática viessem a afetar o planeta. Segundo a Agência Internacional de Energia, a pandemia terá tido – a um custo humano brutal – um efeito positivo sobre essa trajetória. A redução dos GEE, suscitada pela desaceleração da economia, terá sido em 2020 “duas vezes maior que todas as reduções anteriores desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.
Salvo prolongamento dos efeitos da COVID-19, no entanto, nada garante que essa redução prossiga em 2021. A mesma timidez política que orientou até aqui diferentes governos, somada ao negacionismo climático de uma parte deles, prevalece em meio à pandemia pela incapacidade em imaginar outros mundos possíveis. Como alimentar populações inteiras de modo sustentável? Como abrigá-las? Como vesti-las? Como convencê-las de que nosso modo de vida tornou-se inviável? Como interromper, hoje, uma lógica que não fomos capazes de interromper até aqui?
Uma literatura abundante foi divulgada na Zona de Contágio sobre os vínculos entre nosso modo de vida – nossa relação com o planeta – e a pandemia do Coronavirus. Esses vínculos seriam de três ordens, pelo menos. Primeiro, a intensidade do comércio mundial (justificada em sua escala atual principalmente por um diferencial de custos de produção, ligado às diferenças de níveis de vida entre diferentes países); e a intensidade do turismo de massa, ligado à redução dos preços dos transportes de longa distância, aceleram a um só tempo a produção de gases de efeito estufa e a ampliação das condições de circulação dos vírus. Segundo, o modo operatório do agro-negócio, com seu impacto sanitário sobre a população, mas também sobre a redução da cobertura florestal e sober a biodiversidade, ampliam o espaço e as oportunidades de difusão de doenças ditas “zoonóticas”. Por fim, o crescimento das desigualdades ligadas à globalização e às políticas neoliberais criaram bolsões de pobreza – entre outros, na China – que funcionam como focos particularmente favoráveis à difusão dessas doenças. O coletivo Chuang descreve de forma impressionante o desmantelamento do sistema sanitário herdado da era socialista e as condições de acesso a alimentos e remédios de que dispõem os trabalhadores chineses, pontuadas por sucessivos escândalos. (Cf. « Contagio Social : guerra de clases microbiológica en China », Artilleria inmanente, março de 2020 https://artilleriainmanente.noblogs.org).
Também Luiz Marques, em seu artigo citado, explica que as megacidades da Ásia do leste, e principalmente da China, vêm sendo o principal “hotspot” de infecções zoonóticas. Esses países justamente figuram entre os que mais perderam cobertura florestal no mundo em benefício do sistema alimentar carnívoro e globalizado. De 2001 a 2018, a China perdeu 94,2 mil km2 de cobertura arbórea. “Extração de madeira e agropecuária consomem até 5 mil km2 de florestas virgens todo ano. Na China setentrional e central a cobertura florestal foi reduzida pela metade nas últimas duas décadas”. Por outro lado, “entre 1980 e 2015, o consumo de carne na China cresceu sete vezes e 4,7 vezes per capita (de 15 kg para 70 kg per capita por ano ao longo deste período). Com cerca de 18% da população mundial, a China era em 2018 responsável por 28% do consumo de carne no planeta (Rossi 2018)”.
As demandas em direção do comércio agro-exportador mundial provenientes da China afetam diretamente a economia brasileira. Apesar da desaceleração do nosso comércio exterior em 2020 (25% a menos que em 2019), a soja ainda representa 37% das nossas exportações para os chineses, seguida do minério de ferro (23%) e do petróleo bruto (18%) (Folha de S. Paulo, 20 X 2020). Todos os nossos desastres ambientais estão resumidos nesses três produtos.
Como escapar a uma tal lógica, sem a ajuda de múltiplas pandemias?
vou começar com um compromisso que acho que tem sido importante entre a gente na zona de contágio: me situar de onde falo [e, sabemos, se situar é muito menos sobre os lugares da enunciação que sobre ser capaz de formular rotas de fuga de um lugar que se está para um outro lugar (possível) e depois para outro e então outro e assim por diante…].
esses últimos dias foram foda e foram foda exatamente porque comi bronha. eu vi o caldo entornando e não dei muita bola e quando dei por mim e olhei pro caldeirão, uma sujeira que só. [tenho uma amiga que diz ficar espantada em como a gente se assusta com o que já estava batendo na porta e que a gente ignorava como se fosse testemunha de jeová no sábado de manhã… ela diz que fica ainda mais espantada em como a gente se habitua tão facilmente, depois que deixamos ele entrar, em passar um cafezinho para ele tomar enquanto fica com as pernas pro ar diante da televisão (às vezes até servimos um pão de queijo junto)].
enfim, marquei bobeira e o leite entornou. e as avós já disseram, a minha pelo menos vive dizendo, “não adianta chorar pelo leite derramado”, mas a gente chora, né não? [ainda mais hoje em dia em que tudo custa um olho da cara.] e a gente chora e se desespera, porque além de chorar pelo leite derramado, a gente tem que esfregar o fogão com bombril e veja multiuso. e é choro, desespero e cheiro de produto de limpeza [é curioso que produto de limpeza não fica mais caro, né? talvez os donos dos preços saibam que hoje em dia tem muito caldo entornando em fogão por aí…], mas também tem raiva ali no meio: “quem de vós nunca esfregastes com raiva um bombril na superfície de um fogão sujo de leite derramado que atires a primeira pedra” [deyse, capítulo 5, versículo 24].
é na raiva que quero focar. sabe, acredito muito na audre lorde quando ela diz que nós, ou algumas de nós, não sei, temos que aprender a fazer um bom uso da raiva como estratégia de sobrevivência e como modo de lidar com esse susto que a gente chama de modernidade. mas a raiva também ajuda a gente a retomar um pouco a pretensão de saber apontar com clareza [a raiva é, sem dúvidas, fogo que ilumina (e que também queima, tomara!)] quem são nossos inimigos, e peço licença para poder ser pretensiosa em dizer que eu achei um inimigo — porque é isso: o leite derramou e se é pra situar o que eu falo, vieram sim o desespero e a raiva, mas também veio certa amargura, este é um texto de pessoa amargurada [com raiva e amargurada]. meu inimigo aqui é a domesticidade, que calhou de ser o tema que iremos conversar sobre no nosso próximo encontro. por isso achei que talvez fosse interessante compartilhar isso com vocês.
mas para tentar sair uma pouco das desgraceiras pessoais, deixa eu entrar num modo mais acadêmica para tentar, pelo menos, falar das desgraceiras com referências bibliográficas. às vezes ajuda, né? [eu ainda tenho esperanças que um dia o lattes vai ter lá para gente preencher “desgraceiras em andamento” e “desgraceiras concluídas”.]
a domesticidade tem me acompanhado já há algum tempo. na etnologia indígena esse operador esfera doméstica::esfera pública organiza muita coisa e aparece de diferentes formas: consaguinidade::afinidade, interior::exterior, trabalho produtivo::trabalho reprodutivo,lógica da convivialidade::lógica da guerra, chefe::xamã, menstruação feminina::menstruação masculina e, de suma importância para mim, mulheres::homens. mas não quaisquer variações de mulheres::homens e, sim, a forma específica que esse par assume quando encapsulado pelas ficções ora biológicas, ora marxistas, ora estruturalistas, ora caretas, da “complementariedade sexual”. [uma vez na catequese nos explicaram da naturalidade divina (sabe se lá deyse o que é ser natural e divino ao mesmo tempo) do “amor entre um homem e uma mulher” falando de plugues e tomadas que se encaixam perfeitamente e fazem os eletrodomésticos funcionarem… rsrsrs…]
digo que a complementariedade sexual [mulheres::homens] me é de suma importância, pois foi o que tentei imaginar através de outros imaginários (imaginários oriundos das próprias filosofias ameríndias que haviam sido descritas nesses termos) durante a escrita da dirce de mestrado. ali foi meu primeiro enfrentamento acadêmico contra a empreitada doméstica.
peço licença de novo para me desdizer, me desdizer não, mas para voltar atrás um pouco, para quando disse que ia falar de desgraceira com referência bibliográfica, mas preciso falar rapidinho de uma desgraceira com referência biográfica. toda criança que cresceu criança-viada, ou quase toda criança-crescida-criança-viada, teve que, em algum momento, declarar guerra à família-casa-domesticidade: é questão de sobrevivência. digo isso porque algumas crianças-viadas-já-viradas-adultas viram travesti escrevendo uma dirce de mestrado e precisam novamente declarar guerra à família-casa-domesticidade. e isso não acaba, a gente tem que declarar guerra contra a domesticidade toda hora que o leite derrama. e isso tudo, é pra por em perspectiva que minha encrenca com a domesticidade (e com a complementariedade sexual) é teórica sim, cheia de bibliografia, mas também tem uns traços biográficos bem grifados com marcador cor-de-rosa.
mas essa duplicidade bibliográfica-biográfica novamente me faz pensar em compromissos. e quero compartilhar com vocês um compromisso e um xaxo que levei ao falar dele.
o compromisso era cheio de boas intenções — porém, como também dizem as avós, “de boas intenções o caminho pro inferno tá cheio”—, e consistia em me dizer decolonial, ou que minha guerra contra a domesticidade era mais próxima da guerra tupinambá do que de uma “guerra de superpotências” [isso da guerra eu inventei agora, para dar drama e caricatura ao que preciso dizer]. mas era assim mesmo: eu dizia decolonialidade como quem diz “sapatênis é cafona”.
até que um dia, uma gata babadeira me disse, depois de eu dizer “sapatênis é cafona” despreocupadamente em público: “gozado que a sra fala de decolonialidade aqui, decolonialidade ali, mas a única coisa que você fez foi usar guattari para criticar deleuze para falar sobre gênero”. e emendou: “garota, afirma o compromisso, mas aprende a sustentar ele”. e garotas, imaginem como eu fiquei? o leite tinha derramado.
[só para não gerar nenhum equívoco, pois às vezes nós, gentes da universidade, entendemos as coisas tudo errado, então precisamos explicar direitinho. a gata não estava fazendo uma “censura” à leitura de guattari, deleuze ou quem quer que fosse. ela estava me interpelando sobre um compromisso que eu mesma me coloquei, mas não sustentei, pois compromisso é um tantinho enunciação e um tantão caminhada, de qualquer outro jeito, não funciona. nem adianta tentar.]
mas então vamos ao compromisso que queria compartilhar [e que compartilho como uma forma de recompactuá-lo comigo mesma, porque vira-e-mexe eu o esqueço, e por isso o caldo vive entornando sem eu perceber]: eu assumi como compromisso bibliográfico-biográfico que não há como, porque não há como mesmo, pensar a domesticidade sem pensar a colonialidade e a ferida colonial.
e isso por dois motivos:
a domesticidade é uma invenção colonial. a gente conta umas histórias estranhas sobre a domesticidade e esquece de contar como a domesticidade enquanto dispositivo foi elaborado, implementado, ajustado nas colônias. a ann laura stoller é quem melhor me contou essa história quando ela escreveu que foucault não tinha percebido que o dispositivo da sexualidade foi primeiro testado nas colônias, e depois implementado na metrópole. mbembe fala isso quando fala do virilismo dos homens brancos colonizadores e sua fantasia de um orgasmo total, um tremor do sentidos que precisa que o outro seja eliminado da cena do gozo. andrea smith descreve como a ocupação colonial, nos estados unidos, se assentou, entre tantas outras coisas, na heteronorma. oyèrónkẹ oyěwùmí fala de como os discursos coloniais de gênero, assentados na ideia de domesticidade/família nuclear, foram mobilizados pelas administrações coloniais para poder gerir os corpos yorubá. ou quando sebastián calfuqueo fala da retomada de uma relação com as águas-territórios mapuche enquanto uma aprendizagem de feitura de um corpo-território não binário, contra-colonial e contra-extrativista. ou ainda, quando geñi nuñez faz seus textos no instagram explicando sobre a colonização dos afetos. enfim, tem muita gente falando sobre isso, mas eu vivo esquecendo. por isso, digo de novo: a domesticidade é uma invenção colonial. e o mais curioso é que o esquecimento é próprio de seu projeto. eu tendo a pensar que não há tecnologia mais eficaz que a casa em sequestrar a presença. a casa é uma grande máquina de fazer a gente se desimplicar dos problemas com sua suposta ruptura higiênica com o lado de fora (preciado chamou isso de sonho doméstico). por isso parece tão difícil falar do que acontece dentro de casa. por isso também boto muita fé na contra-tecnologia feminista do “pessoal é político” como forma de enfretamento ao sequestro doméstico dos problemas. [a arte também tem produzido formas de percepção do problema da casa-colônia. cito aqui rosana paulino e adriana varejão.] esse ponto, do esquecimento abrigado pelas casas, é essencial para o segundo motivo.
a ferida colonial ainda dói. essa frase vem de duas artistas, jota mombaça e grada kilomba, que têm se dedicado a pensar o trauma da colonização. é preciso saber se haver, elas dizem, com nossa quarta ferida narcísica ou já é a quinta? perdi as contas… de qualquer modo, tem uma ferida que a gente esquece que está aí, mesmo a gente habitando ela todos os dias, dias e noites, às vezes mais à noite que de dia. e na pandemia a gente teve que arrancar umas casquinhas dessa ferida que ainda dói. tenho duas coisas para dizer sobre isso: uma diz respeito a casa como ferida colonial que se instalou e ainda dói, e a segunda, sobre o porquê se haver com ela é um compromisso necessário para com a vida
a) no começo do isolamento social que é um confinamento doméstico, um coletivo do qual faço parte começou a receber bastante relatos da guerra que as famílias fazem com pessoas lgbt. fizemos até uma pesquisa para produzir dados sobre os impactos da covid-19 em pessoas lgbt. mas pensar em termos de ferida colonial essas situações talvez seja importante. amara moira, helena vieira, ave terrena, castiel vitorino, todas elas têm tentado recontar as diferentes figurações de como essa ferida foi criada e mantida doendo. a amara, por exemplo, retoma o crime colonial da sodomia para pensar como as famílias foram colocadas contra suas crianças-viadas. ela conta como que no ordenamento jurídico da colônia, o pecado nefando era considerado um crime de lesa majestade, isto é, dar o cu era tão grave quanto atentar contra a vida do rei e a pessoa denunciada, se não morta, tinha seus bens confiscados e era deixada para viver como pária. e a família desses sujeitos também assumia a pena, ainda mais se ela não denunciasse aquele ou aquela que no seu seio era dada a “inverter” a naturalidade das práticas [a fazer gambiarras com os plugues e tomadas, para usar o idioma do meu catequista]. a família precisou se constituir como uma figura vigilante dos corpos de seus membros. a família teve que declarar guerra contra alguns desses membros. e o mais louco, trabalhando às vezes com adolescentes lgbts expulsos de casa, às vezes com pais de pessoas lgbt tentando lidar com suas crianças-viadas, o quanto essa ferida ainda tá em carne viva. o quanto ela continua sendo cutucada mesmo quando estamos lidando, por exemplo, com pais que aceitam suas crianças-viadas. infelizmente os 500 anos dessa guerra nos desensinaram a como não causar feridas nas nossa crianças-viadas [e que criança não é uma criança-viada? acho que até freud já disse isso.] a gente produz feridas mesmo quando não quer, por isso é importante assumir elas. assumir, como compromisso, que a domesticidade é uma ferida colonial
b) mas assumir a ferida colonial é também um compromisso com a vida. principalmente com a vida daquelas que têm de sentir com mais intensidade e frequência a dor dessas feridas. vou copiar aqui uma citação da grada kilomba, pois ela colocou de um jeito incontornável o problema do esquecimento.
Vejo muito a história colonial como um fantasma que vem e nos assombra, e assombra-nos porque não foi tratado de forma digna. As coisas não foram chamadas pelos seus próprios nomes, não houve um funeral digno, não há um nome que apareça nos livros no lugar certo. A história é mal contada, é contada ao contrário, e os personagens não têm um nome, uma data, um espaço. E por nunca ter sido tratada, a ferida colonial dói sempre, por vezes infeta, e outras vezes sangra. E quando sangra, nós ficámos aflitos e não sabemos porquê. Acredito que a literatura e a arte podem dar ferramentas e linguagem às novas gerações para tratar essa ferida, para colocar as coisas nos sítios certos e saber quem é quem e o que fez e porquê.
quando a gente esquece, a gente não sabe nem como tratar das nossas feridas [a castiel vitorino tem um trabalho muito bonito sobre esquecimento (colonial) como uma forma de adoecimento — se chama “lembrar daquilo que esqueci”]. e ainda pior, quando certos sujeitos se permitem a desimplicação como estratégia de não reconhecimento da ferida colonial, o que eles fazem é fazer com que o presente daquelas para quem a ferida anda sangrando, se torne um problema do passado.
de repente, o presente é vivido como se fosse o passado e o passado coincide com o presente. O racismo e o sexismo e todas as formas de opressão fazem isso, colocam-me num passado que não faz parte do presente mas passa a fazer parte da minha vida presente. Esse desfasamento do tempo faz parte do trauma e faz precisamente porque o colonialismo é uma ferida que nunca foi tratada.
um outro nome para esse esquecimento, e que lembro aqui pois acho que é um dos conceitos mais importantes para o nosso enfrentamento da colonialidade-racismo, é pacto narcísico da branquitude, formulado por cida bento. sem desfazer esse pacto, eu diria ser quase impossível nos haver com as nossas feridas coloniais, tanto as que nos doem quanto as que a gente faz doer nos outros
domesti|cidade
já que eu comecei a falar das desgraceiras tudo, queria pedir licença para contar mais uma desgraceira que me angústia quando eu tô nesses momentos raivosos e necessitada de repactuar minha guerra contra a domesticidade. o paul preciado tem um livro muito bonito chamado pornotopia, em que ele apresenta um estudo da pornografia, da arquitetura e da domesticidade a partir de uma investigação sobre hugh hefner e a mansão da playboy. nas páginas do preciado, a gente descobre que o projeto pornográfico-arquitetônico de hefner é uma guerra contra a domesticidade. na década de 1950 ele monta um dispositivo elaborado para permitir que homens de meia-idade [meia-idade é uma noção que ainda faz sentido?] e divorciados que, por conta da pensão, das cobranças do trabalho e dos filhos que teve com a ex-esposa, se sentiam ainda muito domésticos. a playboy [tanto a revista, quando a mansão] era, portanto, a esperança de uma heterossexualidade livre do espaço doméstico. e já no comecinho do livro, preciado transcreve uma fala de hefner sobre seu projeto:
Eu queria uma casa dos sonhos. Um lugar onde fosse possível trabalhar e também se divertir, sem os problemas e conflitos do mundo exterior. Um ambiente que um homem poderia controlar por conta própria. Lá seria possível transformar a noite em dia, assistir a um filme à meia-noite e pedir jantar ao meio-dia, comparecer a compromissos de trabalho no meio da noite e ter encontros românticos à tarde. Seria um refúgio e um santuário … Enquanto o resto do mundo estivesse fora do meu controle, na Mansão Playboy tudo estaria perfeito. Esse era o meu plano. Fui criado em um ambiente muito repressivo e conformista, então eu queria criar meu próprio universo, onde me sentisse livre para viver e amar de uma forma que a maioria das pessoas dificilmente ousaria sonhar.
sei que quando a gente tá meio emputecida e com raiva, toda pouca coisa pode virar muita coisa se não nos vigiamos [as crente que diz assim, né? “vigia, irmã”.] mas é angustiante como hefner elabora um discurso contra a domesticidade que tem um monte de palavra que facilmente teria saído da minha boca. mas é mais angustiante ainda sentir que ele criou um projeto político para a feitura de uma heterossexualidade não doméstica/da. e nessa feitura a revista foi o de menos. preciado defende que o dispositivo pornográfico tinha muito pouco a ver com a nudez feminina comercializada. [é claro que ter uma foto da marilyn moroe com os peitos de fora, em cores, na década de 1950, comprada numa banca de jornal, foi uma grande novidade. mas de fato, a playboy sempre pode prescindir da nudez, tanto que desde 2015, ela não mais veicula imagens de mulheres nuas em seus números.] o dispositivo pornográfico foi um grande rearranjo na arquitetura e nas infraestruturas do desejo, do sexo, da reprodução e etc. a mansão da playboy, definida por hefner como uma disneylândia para adultos e por preciado como heterolândia, foi um dos maiores golpes que a arquitetura doméstica norteamericana sofreu. e o projeto não parou por aí: a mansão era uma realidade para um milionário como hefner, não para o homem comum; para os homens recém divorciados ou aqueles ainda libertos da domesticidade (os bachelors) foram propostas coisas como a Playboy’s bachelor’s penthouse apartment, em 1956 [que acompanhou uma série de TV, Playboy’s Penthouse, de 1959], e a Playboy Town House, em 1962. ambos os projetos da arquitetura playboy eram centrados em derrubar as paredes do quarto do casal, lugar do confisco legítimo da heterossexualidade doméstica, e fazer de todo o apartamento/casa um lugar de sexualidade latente [nas plantas arquitetônicas desses projetos é visível como a entrada já dá direto no quarto do bachelor — vou deixar umas fotinhos abaixo —, enquanto no contexto da heterossexualidade doméstica o quarto do casal fica trancado, longe dos olhos das visitas e dos demais membros da casa que não o casal.]
[é claro que os homens domésticos/ados também fantasiavam sobre a liberdade da domesticidade, mas só algumas décadas depois, em 1990, surgem os projetos das man caves (também chamadas de manland, manctuary rsrsrs), espaços dentro da casa que permitiam aos homens habitar um fora da casa. e o lugar de formulação da importância desses espaços foi a psicologia evolutiva e a sociobiologia tornada ciência pop, com a publicação de livros como homens são de marte, mulheres são de vênus.] [é nesse período também que há um boom no consumo de viagra e de adesivos de testosterona por homens cis, e o termo grooming passou a ser usado para falar em práticas de cuidado estético por homens. essas são algumas outras curiosidades sobre as reconfigurações infraestruturais da masculinidade.]
enfim, o projeto pornográfico-arquitetônico de hefner não reformula apenas as fantasias do espaço doméstico, mas reconfigura a vida urbana. foi também nas páginas da playboy que surgiu o conceito de kitchenless kitchen, uma cozinha que não é projetada para o uso. o que fez com que o bachelor se tornasse extremamente dependente do take-out [conceito primeiramente associado à alimentação de trabalhadores pobres que tinham que comer a caminho do trabalho] e do delivery [conceito primeiramente associado às noites em família nos subúrbios em que a housewife tirava folga da tarefa de cozinhar para o marido e filhos]. [apenas umas décadas depois, com a emergência da cultura dos celebrity chef, é que os homens que cozinham vão se tornar parte do sonho americano.]
mas houve, naquele período, outros projetos de críticas da domesticidade — e que também reformulavam a ocupação da cidade, no contexto norte-americano —, que permitem desorbitar a angústia de parecer ter os mesmos objetivos que hefner, ou de que eles foram os únicos. vale lembrar a publicação da mística feminina, da betty friedan, que fala sobre a exaustão física e mental causada nas mulheres cis pelo espaço doméstico. mas vou continuar falando dos homens cis e, majoritariamente, brancos.
as décadas de 1940 e 1950 também foram importantes para o surgimento dos primeiros guetos gays em cidades como nova iorque e são francisco. a constituição de certos espaços urbanos como sendo espaços onde a homossexualidade masculina pudesse ser vivida de maneira livre foi permeada por um espírito crítico em relação à domesticidade. foram os soldados recém retornados da guerra que passaram a formular uma recusa da domesticidade como única alternativa para se viver abertamente a própria sexualidade. e é maluco imaginar que foi experiências sexuais com colegas do batalhão durante a guerra [e depois também durante a guerra no vietnã], que levou alguns homens (que vão passar a adotar o termo gay) a declararem uma guerra contra a casa para constituírem um modo de vida gay bom de ser vivido. nesse período, as saunas, as boates, os parques, os banheiros públicos como os novos espaços disponíveis para o exercício da sexualidade [masculina] se constituem como um desafio para a vida doméstica. [sei que três ou quatro décadas depois, com a pandemia de hiv/aids, os homens gays passam a “redomesticar” sua sexualidade como estratégia de sobrevivência, assim como a ação direta, o bash back, se torna prática de enfrentamento dos ativismos que cobravam respostas mais efetivas do poder público à “crise da aids” e ao aumento gigantesco nos casos de violência homofóbica.]
a guetificação das dissidências sexuais e de gênero também vieram acompanhadas de maior repressão policial. a década de 1960 foi marcada pelas invasões e perseguições de policiais e também foi um momento de crise imobiliária que atingiu de maneira intensa as pessoas mais subalternizadas do “gueto gay”, notadamente pessoas dissidentes de gênero. é nesse contexto que acontecem as revoltas de stonnewall, que são claramente uma resposta à repressão policial, mas também à falta de moradia. [a gente esqueceu que as origens do gay pride também foram as lutas por moradia de sylvia rivera, marsha p. johnson e stormé delarverie.]
s.t.a.r. — street transvestite action revolutionaries —, grupo criado por rivera e johson ocupou uma casa abandonada e a transformou em refúgio para outras pessoas lgbt expulsas da vida doméstica. isso foi na década de 1970, em 1972 para ser mais exata. nessa mesma época, um fotográfo preto e gay norteamericano [bem, ele se relacionava com homens e mulheres, mas ele publicamente preferia ser identificado como gay, era um compromisso dele], alvin baltrop, começa a fotografar a ocupação erótica das ruínas da crise imobiliária nova iorquina. explorando como as ruínas do urbanismo [a região dos piers abandonados, que ele costumava fotografar, tinha ficado relativamente isolada por conta de um desmoronamento de parte de uma highway] eram espaços de ocupação de corpos fugidos da domesticidade. nas fotos, a gente vê homens gays tomando sol, conversando, flertando, trepando, ocupando os espaços do abandono da domesti|cidade. eles próprios, muitas vezes, abandonados pela domesti|cidade.
[deixo também algumas das fotos dele para vocês verem, elas são muito bonitas.]
nessa última foto, baltrop registra gordon matta-clark em meio as ruínas de algum edifício. matta-clark também costumava frequentar a região dos piers como parte de suas investigações sobre a arquitetura das ruínas. [matta-clark era um boy hétero, seu interesse nos piers era pelo abandono/descuido da arquitetura daquele território.] ele foi um dos fundadores do coletivo de anarquitetos, uma gente interessada em investigar os vazios, as ruínas, os espaços abandonados, o que foi deixado para traz pela domesti|cidade. mas parte da pesquisa de matta-clark também era sobre a sustentação, sobre o que sustenta os edifícios. sobre o que mantém eles de pé. sobre o quão longe a desconstrução pode ir sem tornar inabitável um espaço. [e quando a gente entra em guerra é importante investigar essas coisas.]
queria deixar uma última fotografia neste longo texto de desabafo de desgraceira, que me dá um sentimento de beleza profunda, porque há uma seriedade gigantesca no que ela nos mostra. [nem sei mais se o texto continua fazendo algum sentido, mas acho que, no fundo, a justaposição de imagens pode ser uma boa aliada para pensar o problema de declarar guerra contra a domesti|cidade, tô juntando armas, e compartilhando elas com vocês.]
a fotografia é de um trabalho de matta-clark chamado splitting, de 1974, em que, junto com uma equipe, ele partiu ao meio uma casa que seria demolida.
\”A pandemia me forçou a habitar o mesmo lugar de uma forma radicalmente diferente. Agora já não habito o mesmo mundo.\”
A experiência pandêmica nos proporcionou o colapso sincrônico entre as escalas planeta-casa-corpo. Fronteiras e divisões que pareciam fixas se atualizam e se reconfiguram; revelando sua falácia e artificialidade. O contágio, o transbordamento, as interdependências estão por toda parte. A situação nos convoca a inventar outros corpos, outros regimes de sensibilidades, outras formas de ser e conhecer. A suspensação inicial da rotina, nos primeiros momentos da pandemia, visibilizou a fina trama das infraestruturas das cidades, da casa e dos trabalhos invisíveis que sustentam a vida comum.
Com a continuidade da situação pandêmica, a organização da vida previamente existente se intensifica através de velhos e novos dispositivos de governo da nossa existência. Entre o mito da casa-refúgio e o vivido na casa-fábrica-escola-prisão há uma pletora de experiências com os mecanismos de controle mas também de criação de novos ritmos, desvios, alianças e insubmissões: devir-selvagem.
A mistura corpo-casa-planeta cria novos conflitos sobre velhos divisores. Queremos descrever e narrar as práticas pelas quais o tempo de trabalho e o tempo de não-trabalho torna-se cada vez mais indistinto; contar como o público-estatal e o privado-capitalista se organizam na trama casa-família-estado-corporação; Que corpo a casa faz? Como a casa se torna uma rígida fronteira que separa o \”dentro\” do \”fora\”? investigar as atualizações da monocultura – plantation – em arquiteturas e formas de habitar que produzem o regime heterossocial, seus corpos, seus funcionamentos generificados; sentir como o desenho da forma-cidade, suas infraestruturas e assimetrias se manifestam a partir de uma experiência onde morar já não é a mesma coisa.
Domesticidade é a noção disparadora do próximo encontro investigativo da Zona de Contágio (05/11). Quinta-feira 05/11 às 19hs:
***************************************************************************** Sobre o percurso:
Desejamos aproveitar os encontros virtuais como momentos de criação e discussão coletiva, para adensar nossas pesquisas a partir das práticas de conhecer que caracterizaram a Zona de Contágio: um laboratório de investigação e produção coletiva; interpelada pelo acontecimento pandêmico, feito a partir de muitas experimentações que atuaram nos limites das nossas formas de produzir conhecimento, nas impossibilidades-possibilidades da produção de uma presença diante da tela, na confluência de uma ciência dos dispositivos e de uma ciência das retomadas.
Em cada encontro, neste ciclo final, teremos a ativação de uma trama investigativa inspirada por uma noção disparadora. Essa trama é feita das diversas perspectivas que alimentam nossa experiência em torno dessa noção e que possam constituir fios investigativos sobre o acontecimento pandêmico. É uma trama feita de corpos-territórios-saberes-poderes-tecnologias; na descrição dos dispositivos de poder e das diversas práticas de esquiva, alianças, ritmos e suas encruzilhadas.
Pensamos que cada noção, em cada encontro, será disparadora de criações individuais e coletivas que irão compor a publicação, mas também poderão alimentar outras obras de autoria múltipla feitas de muitos fragmentos (novos ou reapropriações de trabalhos que compuseram o percurso da Zona de Contágio). Para este encontro da próxima quinta-feira (05/11) ativaremos uma segunda trama em torno da noção de Domesticidade.
Até lá queremos trocar materiais que possam compor o encontro: imagens, textos, outras pesquisas, áudios, vídeos, conversações, artefatos que possamos seguir desdobrando em criações até a ativação da próxima trama. Para essas trocas mais ágeis que compõem os encontros podemos utilizar a lista de email ou o grupo do telegram: Enviaremos aqui também um link para o drive que serve como repositório de materiais (fragmentos, rascunhos ou criações finalizadas) para a investigação coletiva e publicação final:
Como seguir criando perguntas e narrativas que habitem a Pandemia Covid19 com a radicalidade que ela nos força a pensar, mantendo a abertura e a vibração deste acontecimento? Como investigar coletivamente resistindo à paralisia das formas institucionais de pesquisa, nos aliando com lutas e movimentos da vida e da terra que não estão na universidade?
Desejamos que o exercício criativo seja inspirado pelos afetos que constituímos e que sustentaram a formação desse coletivo improvável e implicado em problemas comuns. Queremos insistir na experimentação ontoepistemológica que atravessou a realização de todos os nossos encontros e pretendemos que essa publicação dê consistência a este corpo-sensor-coletivo capaz de deslocar a política do sensível, criando outras condições de sensibilidade, percepção, objetividade e análise. Neste fazer, outros fatos e evidências são fabricadas simultaneamente à constituição do laboratório enquanto uma comunidade política e epistêmica temporária.