Em nosso ultimo encontro conversamos sobre a realização de uma pesquisa e publicação coletiva e discutimos uma proposta de organização para os próximos 5 encontros. A seguir, apresentamos um possível roteiro para esta caminhada investigativa a partir do que emergiu neste último encontro.
Desejamos aproveitar os encontros virtuais como momentos de criação e discussão coletiva, para adensar nossas pesquisas a partir das práticas de conhecer que caracterizaram a Zona de Contágio: um laboratório de investigação e produção coletiva; interpelada pelo acontecimento pandêmico, feito a partir de muitas experimentações que atuaram nos limites das nossas formas de produzir conhecimento, nas impossibilidades-possibilidades da produção de uma presença diante da tela, na confluência de uma ciência dos dispositivos e de uma ciência das retomadas.
Para cada encontro teremos a ativação de uma trama investigativa inspirada por uma noção disparadora. Essa trama é feita das diversas perspectivas que alimentam nossa experiência em torno dessa noção e que possam constituir fios investigativos sobre o acontecimento pandêmico. É uma trama feita de corpos-territórios-saberes-poderes-tecnologias; na descrição dos dispositivos de poder e das diversas práticas de esquiva, alianças, ritmos e suas encruzilhadas.
Pensamos que cada noção, em cada encontro, será disparadora de criações individuais e coletivas que irão compor a publicação, mas também poderão alimentar outras obras de autoria múltipla feitas de muitos fragmentos (novos ou reapropriações de trabalhos que compuseram o percurso da Zona de Contágio).
Para este encontro da próxima quinta-feira (22/10) ativaremos uma primeira trama em torno da noção de Monocultura.
Link para sala – 22/10 – 19hs:
Até lá queremos trocar materiais que possam compor o encontro: imagens, textos, outras pesquisas, áudios, vídeos, conversações, artefatos que possamos seguir desdobrando em criações até a ativação da próxima trama. Para essas trocas mais ágeis que compõem os encontros podemos utilizar a lista de email ou o grupo do telegram:
Enviaremos aqui também um link para o drive que servirá como repositório de materiais (fragmentos, rascunhos ou criações finalizadas) para a investigação coletiva e a publicação final:
Como seguir criando perguntas e narrativas que habitem a Pandemia Covid19 com a radicalidade que ela nos força a pensar, mantendo a abertura e a vibração deste acontecimento? Como investigar coletivamente resistindo à paralisia das formas institucionais de pesquisa, nos aliando com lutas e movimentos da vida e da terra que não estão na universidade?
Desejamos que o exercício criativo seja inspirado pelos afetos que constituímos e que sustentaram a formação desse coletivo improvável e implicado em problemas comuns. Queremos insistir na experimentação ontoepistemológica que atravessou a realização de todos os nossos encontros e pretendemos que essa publicação dê consistência a este corpo-sensor-coletivo capaz de deslocar a política do sensível, criando outras condições de sensibilidade, percepção, objetividade e análise. Neste fazer, outros fatos e evidências são fabricadas simultaneamente à constituição do laboratório enquanto uma comunidade política e epistêmica temporária.
Durante os últimos seis meses na Zona de Contágio, produzimos um espaço de reflexão, intercâmbio de experiências, circulação de textos, relatos e perspectivas face à emergência pandêmica. Como Laboratório de experimentação (onto-epistêmica e política) a Zona de Contágio vem se constituindo como um lugar de confluência entre pesquisadores, criadores e todas interessadas na Guerra das Ciências, nos novos embates e controvérsias que se relacionam com as tecnologias na produção de mundos, política e natureza, mas também nas lutas e práticas de conhecimento do mundo por vir.
Orientados por dois grandes eixos: Ciência dos Dispositivos e Ciências de Retomada, pensamos sobre a reorganização dos poderes tecnototalitários e algoritmizados das nossas vidas, casas, universidades e cidades no que diz respeito ao \”isolamento social\”, trabalho remoto, \”educação à distância\”; domesticidade e o conjunto de relações que nos constitui; Refletimos também sobre produção de saberes e conhecimentos não proprietários que se voltam à terra, ao ritmo, ao corpo, às muitas formas de cooperação para pensar, produzir e sustentar tecnologias do Comum nos interstícios do Capitaloceno e sua tecnopolítica.
Nos próximos quatro meses (6 encontros), e a partir dos experiências e conhecimentos que tivemos nesse período, gostaríamos de nos concentrar na sistematização e produção de uma investigação coletiva que possa se desdobrar em uma publicação (on-line).
A idéia é que cada pessoa (ou mais de uma) poderá propor e realizar um ensaio-investigativo para compor a publicação final. Pensamos em algo simples, curto, e que não conflita com todos os outros trabalhos e tarefas que já temos que dar conta, mas que expresse o encerramento de um ciclo de trocas e pensamentos que experimentamos na Zona de Contágio.
Partiremos de uma pergunta comum: O que pode uma ciência terrana diante do fim do mundo como conhecemos?
A cada encontro, gostaríamos de adensar esse processo pensando juntas as etapas que compõem a fabricação do conhecimento coletivo face ao acontecimento pandêmico: definição de eixos temáticos; formas de pensar problemas e como permanecer um pouco mais com eles; modos de interrogar as formas modernas de separação entre sujeitos e objetos no que diz respeito à produção de conhecimento. Como a experiência pandêmica nos força a pensar? Como ela interroga e transforma o quê e como conhecemos? O que pode ser uma ciência que perturbe e desloque tanto as formas de produzir \”pensamento crítico\” a partir de \”denúncias\”, quanto as formas de produzir ciência como verdades incontestáveis. Também desejamos experimentar a confusão de fronteiras disciplinares (\”ciências da natureza\”, \”ciências sociais\”; \”ciências humanas\”). Desejamos refletir sobre pressupostos científicos como controvérsias: afinal, o que é um \”fato\”? ; Como produzir \”evidências\”? Como fazer da linguagem, do movimento e formas estéticas elementos fundamentais na produção e circulação de conhecimento? Como produzir uma ciência implicada e com habilidade de nos permitir responder às questões urgentes que nos interpelam? Como produzir uma ciência localizada que seja ao mesmo tempo incômoda aos poderes constituídos? Quais alianças ontoepistemológicas precisamos criar para produzir verdades cúmplices entre formas de luta e produção de conhecimento capazes de assumir a guerra de mundos que vivemos?
No próximo encontro, dia 8/10 às 19h, vamos discutir o percurso e adensar a pergunta inicial que move a investigação, como também pensar sobre novas perguntas que nos interessam nessa cartografia-investigativa.
O mundo como uma imensa teia de coreografias de existências em que os seres constituem-se mutuamente e ao mesmo tempo constroem o futuro. Para alianças com aqueles que não pensam como nós, que não pensam como humanos, ou que não pensam, precisaremos ser, além de eticistas-bricoleurs, coreógrafos.
No próximo encontro, dia 24/09 (19h), estaremos com Renzo Taddei, professor e pesquisador da UNIFESP.
LINK para sala:
A conversa pretende seguir tateando o mundo em que vivemos a partir das consequências ambientais-societais-biológicas da emergência do Antropoceno e como ele nos interpela em nossos modos de existência e regimes de conhecimento. Renzo propõe pensar a emergência do Antropoceno também a partir das \”transformações radicais na tecnosfera com o advento da inteligência artificial\”. Diante dos novos conflitos e possibilidades, Renzo convoca imagens sobre coexistência e coabitação que habitam os movimentos da dança:
\”Vivemos em um momento no qual libertar humanos de seus grilhões através da denúncia deixou de ser suficiente (apesar de ainda necessário); é preciso participar dos processos de construção de mundos; isso necessita ser algo maior do que o humano\”
A dança fala sobre movimento em equilíbrios sempre instáveis e impermanentes e \”talvez seja por isso que a dança tenha sido usada, em inúmeras culturas no decorrer dos tempos, como estratégia de conexão existencial entre coisas desiguais, como humanos e deuses, humanos e ecossistemas, humanos e animais, e humanos em situação de diferença (de gênero, por exemplo)\”. Pensar o mundo como tramas de coreografias de coexistência, simbioses e novos movimentos de futuro.
Link para a Conversação Febril – 10 de setembro às 19hs com o Uirá Garcia:
Nossa próxima conversação febril será com Uirá Garcia, professor e pesquisador da UNIFESP. Uirá abrirá uma conversa sobre sua experiência como professor negro na universidade perseguindo caminhos de vidência, desviando das imagens hiper-saturadas. Seguimos pensando sobre tecnopolíticas de retomada – o que pode ser a produção do conhecimento? Como podemos imaginar uma universidade habitada por multiplicidades, saberes , corpos e lutas contra-coloniais? Quais imagens de pensamento se abrem?
O cinema de vidência, para Deleuze, é aquele que nos dá a ver: nos permite ver o imponderado, o que hesita e excede. A vidência, para o filósofo, nos mostra “o tempo que sai dos eixos, e se apresenta em estado puro”; nos mostra \”a imagem inteira e sem metáfora, que faz surgir a coisa em si mesma, literalmente, em seu excesso de horror ou de beleza, em seu caráter radical ou injustificável, pois ela não tem mais de ser \’justificada\’, como bem ou como mal\” (DELEUZE, 1990, p. 31)
Entre os dias 12 de agosto e 20 de setembro, está acontecendo a 9ª Mostra Ecofalante de Cinema. Um “environmental film festival” promovido pela ONG Ecofalante junto a parcerias privadas e governamentais, mas que vem suprimindo a palavra Ambiental da chamada pública da mostra desde a 8ª edição.
Podemos levantar algumas hipóteses acerca do efeito dessa mudança sobre financiamentos. Mas essas hipóteses não tiram de perspectiva, pelo contrário, evidenciam ainda mais o fato de que a noção de meio ambiente – por sua vez comumente associada à de natureza, ainda muito mais complicada – vem passando por tensões. Afinal, o que você associa a “Meio Ambiente”? E quais as sugestões que recebemos sobre essa noção pelo modo como ela é usada por diferentes pessoas, movimentos, instituições, processos educativos e etc? Quando faço essa pergunta, mesmo pessoas que tem uma perspectiva mais ampla sobre meio ambiente localizam lugares comuns como: “problemas ambientais”, “poluição”, “sustentabilidade”, “desmatamento e aquecimento global”, etc. Associações rasas, muitas vezes promovidas pela mídia e por um ambientalismo conservacionista europeu, do norte global, aos quais nem sempre resistimos a endossar.
Ainda assim, quanto mais nos envolvemos, mais nos damos conta de que não há aspecto da nossa vida que possa estar fora disso, que não se relacione com o espaço ao redor e assim o transforme de alguma maneira e seja por ele transformado, em períodos mais ou menos longos no tempo.
Categoria de envolvimento
A Mostra Ecofalante como mostra de cinema ambiental, oferece a possibilidade de pensarmos meio ambiente não apenas como uma categoria mais ampla do que essas associações apontadas acima, mas de certa forma indica que Meio Ambiente é uma categoria que não foi de fato “fechada”. Ou seja, mantém abertura para continuar se transformando e servindo a propósitos epistemológicos e políticos diversos.
Quais os “meios” de dizermos que sim, percebemos nossa indissociabilidade em relação a Terra, a indissociabilidade entre social e ambiental? Já que ainda que a cabeça se mantenha a maior parte do tempo no espectro cartesiano, nossos pés já queiram pisar o chão. As noções de socioambiental e sociobiodiversidade* demonstram essa situação limítrofe, ou transicional.
Assim, podemos criar novas categorias que funcionam como enxertos que continuam parte da “planta” como outra espécie, mas que permitem que a vida continue a atravessá-la mesmo na diferença. Mas também podemos continuar com a categoria de ambiental tornando aquele sentido, mais restrito e quase alheio ao social, como apenas um dos momentos da história desse conceito, de quando éramos um pouco mais ingênuos e não percebiamos que nossas ‘palavras’ poderiam criar e transformar paisagens inteiras.
No segundo caso, a mostra é um exemplo do como já iniciamos outro ciclo de vida do conceito de meio ambiente. Os filmes da mostra estão organizados em programas que compreendem categorias como “Ativismo”, “Consumo”, “Economia”, “Emergência Climática”, “Povos & Lugares”, “Tecnologia” e “Trabalho”. Saúde, Religiões e Espiritualidade, Gênero e Habitação, por exemplo, são categorias não instituídas como programas da mostra. Mas que atravessam os filmes de outros modos.
Alguns dos filmes
Um desses documentários que alargam o campo da noção de meio ambiente com diferentes temáticas, narrativas, outras formas de configurar os problemas ambientais, éTime Thieves – Ladrões do Tempo, de 2018 por Cosima Dannoritzer, – mesma diretora de A história secreta da obsolescência programada (2010) e A tragédia do lixo eletrônico (2014) – e fala sobre o tempo como recurso. Através de uma narrativa que conecta as tecnologias digitais e a monetização do tempo roubado no “faça você mesmo”, ou durante nossa movimentação nas redes sociais. Nos ciclos de produção industrial e consumos completamente dissociados dos ciclos de reprodução da vida, o tempo é roubado também. É o caso das linhas de processamento de frango nos EUA.
Se em algum momento podemos ver com naturalidade o fato de nós próprios realizarmos o nosso pedido e pagamento através de totens quando vamos a um restaurante fast-food e sequer percebermos que trabalhamos para o estabelecimento. Não é tão facilmente naturalizado para as pessoas que perdem sua saúde, seu bem-estar, dignidade ou até a própria vida por se verem obrigadas a trabalhar em condições onde, por exemplo, não podem sair de seu posto sequer para ir ao banheiro, pois as idas ao banheiro podem ser descontadas de seus salários. E mesmo talvez não sendo o foco do roteiro, está presente o fato de que diferentes grupos sociais, para não dizer classes, vivem essa relação com o tempo da produção e da eficiência de formas diferentes. Podemos notar isso durante a pandemia, onde muitas das pessoas em quarentena tiveram seu tempo roubado de uma forma completamente diferente dos trabalhadores do capitalismo de plataforma (motoristas, entregadores e etc.).
Por outro lado, Deus, coloca sua proposta em outras cores, sons e até outro idioma. É um filme chileno, de 2019, dirigido por Christopher Murray, Josefina Buschmann e Israel Pimentel. Um quase silencioso, com o texto menos direto e que deixa brechas ao fazer suas sugestões muitas vezes se utilizando apenas da sequência de eventos apresentados. Ele aborda a visita do Papa Francisco ao Chile em 2018. O filme mostra a preparação dos católicos e da cidade para a recepção do Papa, em meio à crise do catolicismo por um lado, e os evangélicos por outro. A agitação e o tempo da narrativa dada a esses grupos parece ser contrastada pelo tempo-espaço conferido às culturas tradicionais, colocadas como em continuidade com os recursos naturais, povos da terra. A cena da mulher com as crianças falando sobre a interdependência entre nós e a água, é uma espécie de oásis de lucidez, pequeno e potente. O próprio nome do filme, assim no singular, diante do que ele apresenta, parece disparar uma série de questionamentos sobre a escolha dos diretores. É um filme que comunica por espaços não preenchidos por informações no tempo do filme, por contraste de materiais, detalhes do cotidiano, pelas sensações e incômodos.
Há também uma diversidade em relação a como os filmes se aproximam ou se afastam do roteiro baseado na denúncia-solução. Como eles respondem direta ou indiretamente a uma sensação de “Então, e agora?”, “O que fazemos com isso, ou a partir disso?”… Penso que documentários acabam participando de modo mais ou menos explícito da formação de problemas socioambientais ou expressam enquadramentos para os mesmos que podem ter maior ou menor peso a partir do modo como são divulgados, dentre outras coisas.
Alguns filmes, um pouco mais felizes e esperançosos, são sobre essas respostas, essas ações, como é o caso do curta de Cleisyane Quintino de 2019, Cerrado de Volta: a restauração da Chapada dos Veadeiros. Ali é apresentada a importância do Cerrado e o trabalho estratégico de reflorestamento em áreas de nascente, cabeceiras e leito dos rios que cercam as águas correntes que partem do centro para o resto do país. O projeto é realizado pelo ICMBio junto à pesquisadores e às comunidades de moradores há mais de 10 anos. Há um centramento na fala de técnicos e analistas na composição do documentário, o que parece deixar um espaço em aberto sobre como o processo todo aconteceu pelos olhos de mais moradores.
Por outro lado, parece deixar brotar outras relações, como o modo que degradação e restauração possibilitam diferentes formas de envolvimento da população local, técnicos e analistas na configuração de redes junto à outros atores do Cerrado. Nesse caso, o projeto conectou diversas demandas e tipos de interesses, como por exemplo a demanda do projeto por pessoas para realizar a coleta manual de sementes para plantio direto, com a demanda imediata da população por renda, sem contar as demandas das diferentes formas de vida do próprio bioma em questão. As sementes diversas coletadas germinam ao longo do tempo, reestruturando os três estratos da vegetação nativa: árvores, vegetação arbustiva e as gramíneas, vegetação rasteira. Tudo isso é misturado com areia e terra fazendo a Muvuca, que é distribuída no solo com o auxílio de uma calcareadora, regulada por um especialista após longa pesquisa, para distribuir a exata quantidade necessária de sementes por metro quadrado. São muitas interconexões, saberes e práticas, muitos ajustes entre humanos, vegetais e materiais ao longo do tempo, que até o momento da gravação do documentário, resultaram em 105 hectares restaurados das áreas de pasto degradadas.
Esses múltiplos agenciamentos muitas vezes invisíveis a quem não participa dos bastidores do processo é o que sustenta a narrativa do filme O custo do transporte global, de 2016, de Denis Delestrac… Que aborda a imensa rede do transporte marítimo de mercadorias. Uma questão inicial guia sua investigação e seus registros: Como algo produzido em diferentes países ao redor do mundo, que atravessa oceanos, pode ser mais barato do que o que é produzido localmente? A resposta apresenta inovações e desenvolvimentos tecnológicos incrementais que aconteciam há anos sem que nós percebêssemos de onde estamos. A pergunta de Delestrac esconde uma outra (ou pode ser traduzido como outra): Que abusos humanos e ambientais foram institucionalizados para que esses produtos fossem tão baratos? As “externalidades” que não compõem o custo final desse transporte, já que são pagas por trabalhadores, animais marinhos encalhados, pulmões inflamados, áreas degradadas, aquecimento global, e etc. Registros de navios em outras nacionalidades que não a de seus donos são vendidas como produtos em feiras como modo de transferir para fora das áreas que mais se “beneficiam” desse comércio, seu maior peso. E ainda que não exista fora do planeta, são os filipinos (a mão de obra mais barata) que passam a maior parte do tempo longe da família em navios realizando trabalho pesado em jornadas longas, não por acaso, mas porque seu governo atua num esquema que praticamente os dispõe como mercadoria.
No fim Delestrac acaba na etiqueta. Mas se a “tag” faz sentido para a narrativa que se fecha de modo circular, outros inícios poderiam ter sido escolhidos para não deixar quase que como única solução a atitude dos consumidores/clientes dos produtos finais.
Antes tarde do que não
São muitos filmes, debates, algumas matérias condensadoras, e uma oportunidade para repensar a categoria “ambiental”, talvez menos como recurso classificatório, mas como espaço onde determinado tipo de relações são estabelecidas. E desde o dia 31 de agosto estão também disponíveis os filmes do programa “Clássicos e Premiados”, com uma série de filmes brasileiros, dos quais muitos atravessam realidades indígenas. Confiram a mostra!
*DIEGUES, Antônio Carlos. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: NUPAUB – Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras – USP/Hucitec, 2008. /// Para embasar o conceito de sociobiodiversidade, Diegues parte da presença das comunidades tradicionais em áreas de preservação para mostrar como o ambientalismo europeu não pode ser importado para o contexto brasileiro e para a construção de políticas que orientam a gestão dessas áreas sem grandes problemas socioambientais.///
No próximo encontro (27/08), conversaremos com Lucas Keese e Valéria Macedo a partir das 19h
A Zona de Contágio vem se constituindo como um lugar de confluência entre pesquisadores e todes interessadxs na Guerra das Ciências, mas também nas lutas e práticas de conhecimento do mundo por vir. No próximo encontro vamos falar sobre saberes de retomada e produção de conhecimento terrano – pensar os enlaces entre territórios de autonomia e universidades, possíveis tecnologias do Comum que possam fazer frente ao novo regime de extração e reconfiguração do mundo após (e durante) o acontecimento pandêmico.
Se os regimes hegemônicos de produção de conhecimento, ciência e tecnologia e as configurações atuais de suas instituições (universidades e escolas) são parte do problema que hoje enfrentamos (crise ambiental, covid-19, as muitas formas de reprodução do colonialismo, racismo e desigualdades intensificadas por certos arranjos tecnopolíticos extrativistas); quais seriam então os desenhos possíveis de outros modos de conhecer (e suas instituições) que apontem para rotas de fuga do capitaloceno-plantationoceno e das formas renovadas de dominação e extração? Que tipo de conhecimento somos capazes de produzir na contramão do “realismo político” e das novas estratégias de controle possibilitadas pelo capitalismo do desastre e suas novas cercas e profilaxias? Como ativar, acompanhar e retomar as práticas do Comum, não proprietárias, que podem fazer frente às dinâmicas neocoloniais do \”screen new deal\” no plantationoceno diante da crise sanitária que finalmente nos faz constatar a indiscernibilidade entre \”ciências sociais\” e \”ciências naturais\” e os limites urgentes das nossas formas de vida? Como essa retomada pode também reconfigurar nossas agendas e institucionalidades de pesquisa, ensino e extensão perturbando as fronteiras das universidades e fazendo do conhecimento uma prática de encontros atravessada pelo mundo vivo?
\”A nossa avaliação é que, neste exato momento, estamos vivenciando uma das maiores possibilidades de um fim desse mundo eurocristão, monoteísta, colonialista e sintético. Esse mundo está chegando ao fim. Não é à toa que estamos vivendo esse desespero, essa grande confusão. Mas, por incrível que pareça, estamos vivendo também uma nova confluência\”
Conversações Febris – 13 de agosto, quinta-feira, as 19hs – LINK pra SALA.
Passadas algumas semanas de nosso ultimo encontro, queremos retomar a conversa para organizarmos um novo ciclo de atividades da Zona de Contagio a partir de agosto. As agendas já estão sendo engolidas pelo trabalho e demandas da vida. Urge sinalizar alguns horizontes de confluências pra que possamos abrir espaço para novos encontros.
Seguindo a disponibilidade inicial, pensamos em manter as quintas-feiras (19hs `as 21hs) como um momento de encontro para a realização de atividades e produções coletivas (conversações febris, entrevistas; produção audiovisual, podcast, leituras e estudos coletivos etc). Um período reservado para respirarmos juntos, trocarmos experiências e também experimentarmos outras linguagens na criação e produção de conhecimento.
Seguiremos investigando as questões que emergiram e que ganharam consistência em nosso percurso do semestre anterior; tramando nas encruzilhadas entre as ciências dos dispositivos e as ciências das retomadas. Nossa investigação também implica numa meta-investigação sobre as formas de pesquisa e coprodução de conhecimentos [uma síntese do percurso pode ser consultada aqui]
A Zona de Contágio pode se fazer como um experimento (um protótipo) de uma de rede de pesquisa entre as muitas experiências com que estamos implicadas; uma zona de confluência temporária entre as investigações e fazeres com que cada um aqui esta envolvido. Imaginar, inventar, conectar outros fazeres (ensino, pesquisa e extensão), modos de produção de conhecimento, ciências e tecnologias, alianças entre espaços educacionais formais e não formais, experimentações de linguagens, transbordamentos e produções contra-disciplinares.
Se os regimes hegemônicos de produção de conhecimento, ciência e tecnológica e a configurações atuais de suas instituições (universidades e escolas) são parte do problema que hoje enfrentamos (crise ambiental, covid-19, as muitas formas de reprodução do colonialismo, racismo e desigualdades); quais seriam então os desenhos possíveis de outros modos de conhecer (e suas instituições) que apontem para rotas de fuga do capitaloceno e das formas renovadas de dominação e exploração? Que tipo de conhecimento somos capazes de produzir na contramão do \”realismo político\” e das novas estratégias de controle?Onde aterrissar?
Para o próximo encontro (13 de agosto – 19hs) sugerimos uma experimentação especulativa na abertura de novos possíveis: Conversações Febris – 13 de agosto, quinta-feira, as 19hs – LINK pra SALA
*O que pode ser uma universidade terrana no tempo das catástrofes?
*O que pode ser uma aula?
Até lá receberemos materiais audiovisuais, textos, fotografias, audios que possam contribuir para inaugurar esse novo ciclo de conversas. Os materiais podem ser publicados diretamente como comentários neste post ou enviados para o email conspire [arroba] tramadora.net
Os CEOS das grandes corporações de TI nos dizem hoje que a sala de aula “perdeu o sentido” e que as relações educacionais podem ser muito mais eficientes quando inteiramente mediadas pelas plataformas digitais, já que trata-se de produzir e fazer movimentar o “capital humano”. Edufactory cibernética, a redução de formas de conhecimento em “produção e gestão de conteúdo”. No entanto, desejamos fazer outras perguntas, contar outras histórias. É preciso abrir uma conversa epocal sobre o que significa uma aula, quais os sentidos da presença no que se refere à produção de conhecimento e da ciência e os sentidos fortes da experiência e do encontro que atravessam as formas de criação e de conhecimento – para além das disputas pelas grandes Verdades. Qual é o papel da universidade e dos espaços de educação informal como zonas de sinérgicas de pensamento-luta, diante da corrosão absoluta dos sentidos democráticos que vivemos hoje? Como podemos nos apropriar de outras tecnicidades que intensifiquem a experiência ao invés de neutralizá-las?
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Sugerimos dois textos de inspiração para essa conversação febril:
Na sala de aula os smartphones já estão presentes há alguns anos. Conectados ao fone de ouvido, tocando o funk “estorado” dos alunos que te olham com cara de paisagem enquanto te escutam; gravando a sua aula de modo incriminativo, como em muitos casos da onda Escola Sem Partido, ou tirando uma selfie localizada na “Escola Estadual com Nome De Algum Militar Que Quase Ninguém Sabe Quem Foi”. Muitas funções, muitas informações.
Agora os smartphones são as ferramentas principais para que as aulas continuem acontecendo em meio à pandemia de covid-19. A ordem “Guarda o celular!” se contradiz, e agora é através dele que nos comunicamos, quando o plano EAD (Ensino à Distância) dá certo para os alunos das escolas estaduais de São Paulo. E é sobre o funcionamento de algumas delas que consigo falar hoje, ou sobre como estamos nós, professores, lidando com a experiência de um ensino à distância. Então, de onde surgiu esse tal aplicativo, Centro de Mídias, com o qual trabalhamos hoje? Teria alguma relação com as câmeras do Escola Sem Partido?
App Mano e Escola sem Partido
Mês passado soubemos por meio da matéria feita pela The Intercept Brasil qual empresa é responsável pelo aplicativo Centro de Mídias com o qual trabalhamos desde o início da suspensão das aulas presenciais. Em 2018, a empresa IP.TV foi responsável pela criação de um app de streaming chamado Mano, usado para abrigar vídeos e notícias falsas da campanha de Jair Bolsonaro na época, conteúdo comumente vetado pelas redes sociais mais populares. O app teve Flávio Bolsonaro como garoto-propaganda, estimulando a migração das redes sociais mais comuns para ele, e ainda hoje os alunos do Amazonas, Pará e Piauí têm acesso ao canal “TV Bolsonaro”, ao mesmo tempo em que acessam os canais da rede pública de ensino. O app Centro de Mídias foi doado pela empresa IP.TV e recebe dados de cerca de 3,5 milhões de alunos, além dos dados de todos os professores e demais funcionários da equipe pedagógica das escolas estaduais paulistas*. Coincidências.
O movimento Escola Sem Partido, por sua vez, se deu a partir da acusação de doutrinação político-ideológica dos professores para com os alunos. Agora, as “escolas sem partido” têm como ferramenta principal de trabalho um aplicativo que tem como base o Mano, app desenvolvido em 2018, época de campanha, em parceria com Jair Bolsonaro. A empresa desenvolvedora tem hoje acesso a todos os dados inseridos nesse app educacional: materiais didáticos, atividades, aulas gravadas, videoconferências, chats e o que mais acontecer dentro e fora do aplicativo Centro de Mídias (galeria de fotos, microfone do celular, dentre outros). Mais uma vez a ideia de “partido”, seja como “tomar partido”, seja como partido político, é seletiva: pretensamente neutra, a Escola Sem Partido não se mantém muito longe da “tomada de partido” quando seleciona discursos que devem ser usados (TV Bolsonaro, para alguns estados brasileiros) e outros a serem descartados e até proibidos. Enquanto presencialmente há a distância no espaço da sala, com as técnicas da escola, entre professor e aluno, entre corpo e mente, pelo bem da imparcialidade e da transmissão de saberes isentos… no EAD, quão distantes estamos agora, comparado ao que tínhamos presencialmente?
bell hooks e a pedagogia libertadora em um ensino à distância
bell hooks fala de uma pedagogia libertadora que nos faz sair dos limites de nosso corpo, da divisão corpo e mente, sair da crença de que se faz necessário não romper a linha de fronteira entre a escrivaninha do professor e a extensão da sala de aula, onde não se pensa com o corpo, o corpo que fica de pé, que gesticula, que fala com o corpo e a mente. “A noção tradicional de estar numa sala de aula é a de um professor atrás de uma escrivaninha ou em pé em frente à classe, imobilizado”*.
A pedagogia libertadora põe o corpo para frente da escrivaninha, para o meio da sala, onde se vê que ali também há um corpo como o dos alunos, também há opiniões e gostos pessoais, cheiros, roupas, gestos. Como a pedagogia pode ser libertadora num ensino à distância?
O aluno pede desculpas por não conseguir acessar as lições que você posta na plataforma Google, lhe pede ajuda, e você o ajuda da maneira que pode, pelo seu whatsapp pessoal, por exemplo. Os professores se desdobram para montar videoaulas, “textos-aulas”, realizar videoconferências com os poucos alunos que participam. Alguns professores são avisados de que é preciso elaborar somente atividades escritas, pois alguns alunos estão indo à escola buscar as atividades impressas toda semana – não há comunicação por celulares ou computadores. A troca de saberes acontece quando você sabe que seus alunos estão ali minimamente (agora do outro lado da rede) lendo, ouvindo e entendendo o que você quer dizer. Mas será que a mensagem que enviamos está chegando?
Agora rompemos mais uma vez as fronteiras, e a pedagogia é arremessada num espaço cibernético onde coincidências e desrespeitos à privacidade acontecem sem que se dê muita importância. Onde doações são feitas a um custo: doa-se um app, se ganha uma quantidade enorme de dados que podem ser utilizados tanto numa estratégia governamental quanto numa estratégia de lucro.
A educação de plataforma não vê mais corpo, não vê limites entre privado e público, já que agora mal temos como opção passar ou não o número de telefone pessoal pra mandar uma mensagem no “zap” e tentar encontrar seu aluno prestes a desistir da escola, por exemplo. O áudio do “zap” vira uma mini aula (“Mas pode falar se você não entendeu a atividade, tá? Eu mando outro áudio!”) para alguns; as mensagens dos alunos chegam a qualquer hora do dia (ou da noite), aquele grupo de whatsapp parado virou o grupo da sala do 1º ano, onde só quem fala é professor, e os alunos não aguentam mais tanta atividade.
A educação de plataforma não vê mais corpo, não vê limites entre pessoal e profissional, não vê limites de espaço e tempo, esquece dualismos para se colocar ali: no meio de todas as informações processadas em uma velocidade que não acompanha o nosso próprio ritmo de pensamento e raciocínio, nem dos alunos, nem dos professores.
Ainda, sobre raciocínio: qual a didaticidade existente em escrever textos para que os alunos consigam ler e fazer as atividades com base nesse “texto-aula”? No máximo, textos que imitem a sua própria fala em sala de aula, com gírias, com memes, sem se importar tanto com as regras gramaticais. Mas, e quando a dificuldade de leitura é mais forte? E quando é difícil se concentrar em casa? Pesquisar a resposta daquela pergunta de alternativa no Google soa ainda mais tentador à distância…
Isso tudo quando há o acesso: muitos alunos ao menos conseguem acessar o tal aplicativo, porque não têm celular em casa, porque estão usando a internet do vizinho e ela não “pega” bem, porque o celular que “pega” em casa é do pai ou da mãe, e eles trabalham o dia todo e precisam do celular para sair para o trabalho. Tantas reportagens sobre como tem sido a educação à distância para o ensino privado em contraposição ao ensino público, e enquanto no primeiro há até maior engajamento, eu me pergunto: quais os incentivos reais para continuar estudando, estando no ensino público e vivenciando situações como as que citei ali em cima? Vivendo os problemas já enfrentados em meio às técnicas escolares clássicas, presenciais, disciplinares, excludentes, agora potencializados pela tecnologia digital.
Há algumas semanas fizemos reuniões com algumas turmas de alunos, depois de um “Conselho” improvisado (“fulano fez a lição? “não”, “não também”, “não fez”, “ok, vou tentar contato com ele. Ciclano…?”), em busca de animá-los, de não deixar que desistam, de encontrá-los e saber o porquê do sumiço, de não fazerem as atividades, de mal acessarem o tal app do governo. No geral, a maioria dos participantes das reuniões eram professores. Os alunos iam entrando na videoconferência aos poucos. Somente alguns alunos participavam, mas muitos eram já bem participativos nas aulas presenciais. A nota de participação também envolve questões de acesso à internet, celular, tv, e outras técnicas pagas, principalmente agora.
Boatos que uma sala do 3º ano do Médio combinou entre si de reprovar em conjunto: uma professora comentou que é como se eles se incentivassem a não fazer as lições, mesmo tendo acesso normal às plataformas de ensino. 3º ano do Ensino Médio, poucos alunos restantes na turma, porque muitos provavelmente já desistiram antes de qualquer tecnologia digital virar ferramenta principal de estudo. Como reanimar?
Todos os dias os grupos de Whatsapp dos professores são bombardeados por mensagens de “Bom dia”. Seria uma forma sutil de assinar o ponto ou de só desejar um bom dia mesmo? Já fiquei na dúvida e mandei “bom dia” algumas vezes, mas agora sei que existem formas ainda mais sutis de contar presença: nossos coordenadores nos avisaram dos relatórios de presença baseados na quantidade de “logins” às plataformas de ensino, Google Classroom, app Centro de Mídias, entre outros. Os professores que não estão acessando as plataformas são notificados, e precisam acessar as plataformas para que não fiquem com faltas.
Quanto menor é, mais nocivo pode ser
Quanto menor é, mais nocivo pode ser. “Eles são, tanto política quanto materialmente – difíceis de ver. Eles têm a ver com a consciência – ou com sua simulação”*. Os tais “chips de silício”, os smartphones, ocupam a função de base de trabalho agora: relatam nossa frequência, determinam nosso salário; facilitam ou dificultam o acesso dos estudantes ao aprendizado, inclui alguns, exclui ainda melhor outros; quebra barreiras entre a tal vida pessoal e a vida profissional, o privado e o público, o espaço e o tempo, de trabalho e de lazer; gera desânimo, desistências, afastamentos entre o aluno e o professor; por fim, dão lucro e alimentam muito bem bancos de dados de algumas empresas de tecnologia, como a que criou o app Mano, base para o atual Centro de Mídias paulista.
Ao fazer a troca de ambiente técnico, não mais a escrivaninha, a lousa, o giz e o apagador, mas o smartphone e o computador, a internet, a mediação: como seria possível realizar uma pedagogia libertadora numa era de ciborgues?
Libertadora para a professora/professor, resguardando sua liberdade de expressão, prevenindo a seletividade dos movimentos “Sem Partido”; libertadora para o aluno, que se apropria do conhecimento, que tem voz ativa e crítica frente ao conteúdo que aprende, que entende o funcionamento das práticas educativas tanto online quanto presencialmente.
Os smartphones já estão aqui, ao nosso lado. Os ciborgues já estão aqui há algum tempo. Agora, o aperfeiçoamento é nítido: as técnicas de controle se afunilam, a liberdade de expressão é ainda menor, a mediação torna-se um caminho quase sem volta quando se pensa num mundo pós-pandemia. Como formar uma unidade de resistência, professores e alunos, frente a essas novas técnicas de controle?
*HOOKS, bell. “Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade”. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. – 2 ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.
*HARAWAY, Donna. “Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano – O Manifesto ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX”. Organização e tradução Tomaz Tadeu – 2. ed. – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009 – (Mimo).
A quarentena foi decretada em São Paulo há algumas poucas semanas, mas continuei trabalhando como entregador de bicicleta através dos aplicativos. Meu único vínculo é o cadastro de inscrição nos apps. Não se reconhece o vínculo trabalhista, celetista ou qualquer outra coisa. Sou uma espécie de trabalhador autônomo, mas sem autonomia. Precisei continuar trabalhando para ter uma renda enquanto o auxílio emergencial ainda era uma discussão entre os políticos.
Mas, o primeiro domingo de abril, foi meu último dia de trabalho. Na última entrega, da última noite em que trabalhei como entregador (até então não havia decidido parar de trabalhar por conta da pandemia), eu estava na calçada de um restaurante. Esse é um local comum aos entregadores, fora do restaurante. Daquelas regras não ditas, mas que ficam explícitas na fala dos atendentes: “espera lá fora que eu já levo o pedido para você”. Com a desculpa de dar mais agilidade e melhorar a circulação, criaram portinhas que já dão para a calçada, para entregarem comida. Mas que, para mim, são as portas que separam onde é o espaço dos clientes e dos trabalhadores.
Este local comum dos trabalhadores, a calçada, é um lugar de troca de experiências. Por volta das 23 horas, eu e outros três motoboys conversávamos sobre trabalho, em frente a um restaurante japonês. O assunto era a piora do trabalho na pandemia. Sobre a diminuição dos valores pagos e a mudança no perfil dos pedidos.
Com medo de saírem às ruas, as pessoas passaram a fazer mais pedidos de compras em mercados. Realizar compras nos mercados não é vantajoso para o entregador. São pedidos demorados, já que o trabalhador tem que procurar no mercado pelo pão de forma, integral, com mais de 12 grãos, sem casca da marca azul, não a vermelha! Essa procura é sempre demorada. Fora uma série de outros contratempos que esse tipo de pedido traz. O valor do produto na prateleira diverge do valor no app, o produto está esgotado naquele mercado, achei o produto, mas cadê a etiqueta com o preço? Filas, erros nos aplicativos, demora de processamento, são tantos problemas que já aconteceram…tempo de vida!
Todos reclamavam sobre esses tipos de pedidos. Os clientes passaram a pedir muitos produtos nos mercados. O que antes eram alguns produtos pontuais, viraram compras grandes. Relatei a eles sobre o tempo que perdi para sair de um pedido, pois o cliente havia pedido 20 litros de água pelo aplicativo. Nem um motoboy conseguiria carregar aquilo, muito menos eu, de bike.
Outros comentários que surgiram na conversa eram reclamações sobre como havia decaído o valor pago aos entregadores nos últimos dias. Um deles queixou-se que estava na rua desde às 10 horas da manhã e ainda não havia ganhado R$100. Mostrava-se descontente porque antes recebia o dobro do valor em um dia inteiro de trabalho. Outro motoqueiro, com o celular na mão, concordou e disse que estava quase na mesma. Falou que estava na rua desde o meio dia e acabara de bater os R$100 do dia. Virou e mostrou a tela do celular para que todos vissem.
Imagem retirada de um grupo de entregadores do Facebook. O print foi um bug que zerava as corridas e que ocorreu meses após o relato do texto.
O primeiro motoboy que já havia reclamado dos valores se exaltou com a demora do pedido e foi cobrar o atendente do restaurante. Perguntou, incisivamente, se seu pedido já estava pronto. Ele estava há 40 minutos esperando. Era seu último pedido, queria ir para casa descansar depois de um dia difícil. Contudo, o atendente conseguiu acalmá-lo. Falou que o pedido estava em preparo e pediu para aguardar. Mesmo contrariado, decidiu aguardar mais um pouco. Não que tivesse muita escolha, pois sair de um pedido é arriscado. Recusar pedidos pode causar bloqueio no app o que significa ficar sem emprego. Trabalhador autônomo sem autonomia.
Lembrei que nessa mesma semana, já na “quarentena”, estava pedalando até um restaurante por uma rua mal iluminada que termina em uma extensa avenida bem movimentada. Na esquina, duas viaturas da polícia estacionadas. Paravam alguns carros, motos e bikes (eu) “aleatoriamente”. Não que os policiais tenham sido mal-educados ou violentos comigo. Mas, é o tipo de coisa que irrita. Pois, claramente eu estava trabalhando. Nas costas, carregava uma mochila enorme, característica de entregadores, com o logo da empresa estampado, com uma cor gritante. Entretanto, sei que não foi a cor da mochila que chamou a atenção deles para me pararem.
Meu pedido ficou pronto antes. Não vi o desenrolar da história do motoboy que já estava impaciente. Peguei as várias caixas do pedido, coloquei na mochila e fui embora. Passava das 23 horas e queria chegar logo em casa. Terminar o último pedido e descansar.
Contudo, pedalando pela noite, seguindo o GPS, também sentia raiva. Comecei a pensar sobre aquela conversa, aquela semana, a pandemia, o trabalho, etc..
Era um acúmulo, um esgotamento da estrutura do trabalho através dessas plataformas. Das condições trabalhistas já conhecidas por muitos. Da posição social dos entregadores, descartáveis para muitos. As classes mais abastadas recolhem-se dentro de seus apartamentos, longe do vírus, enquanto nós temos que continuar na rua trabalhando. Eles não conseguem abrir mão de comer pizza, hambúrguer, sushi, sei lá. Querem comer, mas não estão dispostos a se arriscar nas ruas em meio a uma pandemia. Deixem que outros se exponham no lugar.
E a gota d’água era a desconfiança que aquela última entrega era para alguém que não estava cumprindo o isolamento social. Era muita comida para apenas uma pessoa. Na minha mochila havia comida para umas seis pessoas. Uma família grande, talvez? Nunca tive a confirmação de fato. Mas entregar mais de R$200 de comida, enquanto dois trabalhadores não tinham ganhado nem R$100 trabalhando o dia inteiro, para um casal branco, de classe média, risonho, que provavelmente não estavam cumprindo a quarentena. Foi o empurrão para que eu roubasse alguma comida daquela entrega.
Desde quando comecei a trabalhar um dos assuntos recorrentes na nossa calçada são formas de pegar o pedido para si. Existem várias formas de pegar a entrega para si e comê-la. Varia de aplicativo para aplicativo e das condições de cada pedido. Na fila de espera, na calçada, é comum alguém falar que está esperando ali para levar o pedido para casa e outro comenta que já fez isso, mas de outra forma. Um terceiro trabalhador complementa com mais uma outra técnica para comer a encomenda do cliente. Enfim, existem muitas formas que os entregadores encontraram para explorar as vulnerabilidades dos aplicativos. E essas práticas são compartilhadas entre nós.
Não que seja grande coisa, pegar uma parte do pedido para mim não é nada. Mas, naquela noite, me senti bem. Era o que eu queria. Desejava que todos eles se fodessem. Queria dar prejuízo ao aplicativo, ao restaurante, aos clientes.
Não sei qual foi o desfecho da história. Se reclamaram com o restaurante, com o aplicativo ou deixaram por isso mesmo e comeram o resto do banquete. Mas, sei que aquele shimeji pareceu mais saboroso naquele dia.
Conversações Febris #6 – 2 de julho, quinta-feira as 19:00hs.
Nos cinco encontros realizados tecemos caminhos, investigamos juntas a possibilidade de retomarmos o ritmo nos interstícios algorítmicos de novas verdades tecnológicas. Experimentamos convocações de presença, a possibilidade de respirar juntos em um ambiente de muitas saturações, comandos e novas disciplinas. Criamos encontros, narrativas, escritas, vídeos, performances, diálogos intensos.
Fizemos isso a partir de duas coreografias de pensamento: ciência da retomada e ciência dos dispositivos, movimentos investigativos de atentar tanto para os saberes minoritários, das lutas e conspirações dos viventes como também para as novas formas do poder que nos conduzem e paralisam. Nessa trajetória, 4 grandes dimensões de analise foram emergindo como fios que ajudaram a tramar uma investigação selvagem: regimes de conhecimento; regimes de poder; regimes tecnopoliticos e tecnoesteticos; transição societal e os limites do antropoceno/capitaloceno/plantationoceno.
Em nosso ultimo encontro, entretanto, mergulhamos de forma mais detida numa reflexão sobre a educação (formal e informal), universidade, escola, tecnologias, praticas e saberes em luta diante das reconfigurações do presente e das intensificações provocadas pela pandemia covid-19. Sentimos que neste ultimo encontro foi possível articular aquela tessitura intelectual que vinhamos nutrindo com uma discussão mais aterrada nas experiencias vividas sobre problemas comuns que nos afetavam. Talvez porque estejamos todxs de alguma maneira envolvidos com atividades educacionais, de pesquisa e criação (formais ou informais) e porque sentimos coletivamente os limites de muitos desses espaços para responder à crise total que habitamos hoje.
Por isso tudo pensamos em uma continuidade para a Zona de Contágio que pode se fazer como um experimento (um protótipo) de uma de rede de pesquisa entre as muitas experiências e práticas com que estamos implicadas; uma zona de confluência temporária entre as investigações e fazeres com que cada um aqui esta envolvido. A partir das discussões anteriores e sob um guarda-chuva generoso (educação) que emergiu em nosso ultimo encontro, listamos algumas temas que sentimos ressoar nas produções e atuações dos participantes desse percurso:
educação, regimes de conhecimentos e práticas minoritárias; saberes das lutas; experimentos de Retomada; educação, modos de subjetivação, tecnologias; dispositivos de controle e (des)controle; mediações técnicas, tecnológicas e algoritmos; regimes de sensibilidade, percepção, sensação e modos de conhecer; ambiências e corpo, cidade, experiência X ambientes tecnomediados; campos experimentais de luta e direitos; práticas educacionais e ambientes/tecnologias digitais: o que pode ser uma aula? Quais universidades? pluriversidades? territórios de luta e de produção de conhecimento.
Imaginamos para o próximo semestre enveredar numa investigação coletiva entramada pelas praticas de cada um em torno de problemas confluentes. Nesta quinta-feira (02/07) gostaríamos de conversar sobre essa ideia e também sobre como realizá-la. Inicialmente, pensamos em seguir com encontros quinzenais neste mesmo dia/horário pra compartilharmos nossas experiências e também produzirmos coisas juntxs. Gostariamos de intensificar a documentação coletiva que já estamos praticando e quem sabe produzir um livro coletivo ao final do ano, sintetizando um tanto do que estamos criando e ainda vamos produzir durante o próximo semestre. A realização de podcasts, experimentações corpograficas, sonoras e audiovisuais também são desejadas!
Aguardamos vocês para mais uma conversação febril! Quinta-feira, 2 de julho as 19hs