Zona de Contágio: laboratório pandêmico e saberes insurgentes.
Resumo: Zona de Contágio foi uma experiência de pesquisa situada realizada durante a pandemia Covid19. A partir de uma convocatória pública, constitui-se uma rede interdisciplinar, acadêmica e extra-acadêmica, de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do Brasil, interessadas em criar e sustentar um laboratório coletivo. No percurso dos encontros virtuais e seus interinstícios, foi elaborada uma trajetória de investigação sobre a pandemia como um acontecimento multiescalar: vírus, corpos, tecnologias, domesticidades, economias, saberes, resistências, saúdes, planeta. O laboratório enquanto um corpo-sensor coletivo visava constituir uma trama feita da confluência entre dois movimentos. Uma ciência dos dispositivos, produzida por uma cartografia sensível das manifestações dos novos regimes de poder e saberes sobre a vida tecnicamente mediada, a biopolítica, a domesticidade, a racionalidade algorítmica e neoliberal, a monocultura tecnocientífica. Noutra direção, uma ciência das retomadas, feita nos ensaios de novas formas de cooperação, lutas e acordos coletivos, nas alianças multiespécies e novas sensibilidades que inspiram a emergência e urgência de saberes e formas de vida que apontem para rotas de fuga do Antropoceno.
Referência:
MORAES, Alana; PARRA, Henrique; PEREIRA, Bru. Zona de Contágio: laboratório pandêmico, saberes insurgentes. São Paulo: Tramadora Edições, 2021. (978-65-00-32775-5).
Lançamento do livro Zona de Contágio: laboratório pandêmico e saberes insurgentes.
A publicação resulta de uma criação coletiva em rede de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do Brasil que participaram da investigação experimental \”Zona de Contágio\”, durante a Pandemia Covid19. Para celebrar o percurso e a vida entre todes, faremos uma transmissão do lançamento no Canal do Pimentalab Unifesp no Youtube.
texto produzido a partir das notas coletivas da conversação realizada na Zona de Contágio em torno do tema \”Domesticidade\”.
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\”A experiência pandêmica nos proporcionou o colapso sincrônico entre as escalas planeta-casa-corpo. Fronteiras e divisões que pareciam fixas se atualizam e se reconfiguram; revelando sua falácia e artificialidade. O contágio, o transbordamento, as interdependências estão por toda parte. A situação nos convoca a inventar outros corpos, outros regimes de sensibilidades, outras formas de ser e conhecer. A suspensão inicial da rotina, nos primeiros momentos da pandemia, visibilizou a fina trama das infraestruturas das cidades, da casa e dos trabalhos invisíveis que sustentam a vida comum. Com a continuidade da situação pandêmica, a organização da vida previamente existente se intensifica através de velhos e novos dispositivos de governo da nossa existência. Entre o mito da casa-refúgio e o vivido na casa-fábrica-escola-prisão há uma pletora de experiências com os mecanismos de controle mas também de criação de novos ritmos, desvios, alianças e insubmissões: devir-selvagem. A mistura corpo-casa-planeta cria novos conflitos sobre velhos divisores. Queremos descrever e narrar as práticas pelas quais o tempo de trabalho e o tempo de não-trabalho torna-se cada vez mais indistinto; contar como o público-estatal e o privado-capitalista se organizam na trama casa-família-estado-corporação; Que corpo a casa faz? Como a casa se torna uma rígida fronteira que separa o “dentro” do “fora”? investigar as atualizações da monocultura – plantation – em arquiteturas e formas de habitar que produzem o regime heterossocial, seus corpos, seus funcionamentos generificados; sentir como o desenho da forma-cidade, suas infraestruturas e assimetrias se manifestam a partir de uma experiência onde morar já não é a mesma coisa.\”
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Casa e monocultura, casa e plantation estão ali na mesma paisagem. O doméstico não é só o âmbito do lar, da casa. É também quando como falamos dos animais que são domesticados. Doméstico vem de domos – domínio – é uma forma de controle patriarcal sobre os corpos das mulheres, dos animais, etc. Uma das coisas principais pra mim é uma desromantização do lar. Parece que fica inviável aquele sonho do american way of life, a concreto espacial do american way of life. No primeiro momento da quarentena houve a possibilidade do ficar em casa, ficar quieto em casa; mas logo veio a avalanche do que já era essa sociedade. Seguimos trancados em casa, mas ainda reproduzido tudo o que já era ruim dos nossos modos de vida. Enfim, eu só queria botar pilha na importância da desromantização. O discurso patriarcal romântico sobre o que uma casa, um lar, ruiu como uma casa que desmorona. Pra quem a casa era romântica? Parece que todo mundo já sabia dos limites. Para mim, a casa era um descanso da atenção devido a saturação do que é estar na rua. E é um descanso da atenção por conta do seu ritmo repetitivo, o conhecido gera um conforto. Diante das diferentes sensibilidades, o quanto o corpo pode aguentar (nisso de estar sujeito ao tudo do fora)? Fiquei pensando sobre o que é não ter a casa? E uma das perguntas que eu sempre ouvi é \”por que será que ele não volta pra casa? E vou partilhar uma das falas do meu irmão: – \”eu posso tá numa pensão no centro, em algum albergue. E ai eu me levanto as três da manhã, e vou para o Terminal Bandeira, que foi o primeiro lugar que eu dormi e me senti seguro foi o Terminal Bandeira\”. Então é uma volta pra casa no Terminal Bandeira, as três da manhã quando ele não consegue dormir. E antes de terminar minha fala, vou falar do pikachu, que é um pokemon não domesticável, que não entra nem fodendo na pokebola, ele fica com o Ash pela amizade. A relação do Ash com o Pikachu não é de domesticação, é de amizade. Assistam!! Vou puxar um outro fio: pensar a domesticidade em outros lugares além da casa. A domesticidades está em outros lugares, assim como a casa. Como as configurações da domesticidade se constituem nas nossas relações com o mundo, com o trabalho? A pademia nos ajudou a revelar as tramas que organizam a cidade, pois a domesticidade opera uma partilha do mundo, um arranjo de assimetrias, divisões, que são generificadas, racializadas. O que é necessário para se manter uma casa no contexto da pandemia? Pra muitos está claro que a casa não é o refúgio, mas o lugar de conflito. Mas é essa relação da casa com o mundo. Como essa forma casa na cidade, se apresenta como imagem (ideológica) de uma célula da autonomia, da autossuficiência e independência. Um márcio, um homem em situação de rua, contou pra gente que ele estava com muita saudade dos filhos, e ele falou que não conseguia recuperar essa relação com os filhos depois que ele ficou desempregado e foi morar na rua. Porque ele não tinha mais nada a oferecer para eles… A domesticidade é a maior produtora dos corpos e gêneros. Pensar em casa é pensar quem pode morar onde e suas articulações com o mercado imobiliário e o capitalismo financeiro. A dominação, a domesticação e o amor estão firmemente entre-laçados. A casa – o nosso doce, familiar e seguro lar – é onde todas essas dependências intra e interespecíficas atingem o auge da saturação. Por mais prazeroso que seja, talvez essa não seja a melhor ideia para uma vida multiespécies na Terra. Considere, ao invés disso, a abundante diversidade que margeia as estradas. Ou considere os cogumelos. reivindicação de boa parte do movimento lgbt é a moradia. viver bem, morar bem. a casa é uma invenção contra ecossistema. casa como lugar onde habitam outros seres. V.Wolf – \”um teto (quarto) todo seu\”, onde se discute espaços de autonomia de pensamento.Também penso na reinvenção da domesticidade feita por pessoas LGBT nas Houses, como uma forma de criar outras relações.Também fiquei pensando na distinção entre o público e o privado, que organiza o modo como pensamos a domesticidade. E como essa distinção não funciona em outros contextos, como por exemplo, aqui onde eu moro, no sul de Minas, no interior. Dá para pensar a casa desconectada da domesticidade? O que acontece com a casa sem a domesticidade? Essa domesticidade resiste à ausência de cidade? Há uma perda muito qualitativa da experiência urbana que parece estar em curso. Fico pensando no terreno baldio, num devir-casa. Baldio vem do Árabe, que significa inútil, que não existe para a produção, não existe para desempenho. Meu vô era desses que entra num terreno baldio e plantava pra eles e pras pessoas ao redor. Chegou, plantou! A pandemia me fez pensar naquela frase: \”takes a village to raise a child\”, e de repente, em quarentena, com dois filhos pequenos, me perguntei: \”cadê minha village?\” Toda a casa tem uma mulher lá, sustentando o trabalho da limpeza, com os filhos, com os corpos. Eu acho muito legal trazer a figura da mulher para pensar na domesticação da vida. Uma cigarra apareceu no meu dedo. Veio fazer morada aqui no meu dedo. Uma tese que orientei – a Experiencia da maternidade em Recife – e que fala da experiencia da maternidade no Brasil, evocava a idea de maternidade em rede. Ou seja, no meio popular, a família clássica, por uma série de razões, as mulheres funcionam pra cobrir umas as outras para cuidar das necessidades das crianças, elas funcionam em rede. Tanto a questão do afeto, responsabilidade, uma serie de estratégias de sobrevivências. Dissociar o que é a experiencia da classe média, e do que são outras experiências de organização da experiência da casa. Domesticidade tem aparagens muito variadas. Experiências atravessadas por dinâmicas, muito diferenciadas. Concordo com você. Mas de qualquer maneira é uma rede de mulheres que lidam com essa experiência. Nem sempre, você tem historia dos novos pais, o impacto do movimento feminista, mais de quarenta anos do movimento feminista. Agora, na classe média tem a figura dos novos homens, dos novos pais, eles não são estáticos. Eles aprendem a gostar de criança, a gostar de cozinhar, etc. Esvaziar o ralinho é parte do lavar a louça. O ralinho é demarcador de níveis de participação. Isso não é universal. A heteronorma nem sempre se replica na roça. A imagem da roça como modelo arcaico-patriarcal, é nada mais que a visão da classe média para a roça. E que existem caminhos outros nessa forma de cuidado. Dentro da configuração ocidental, na Grécia esse modelo de cidade é modelo da pólis, que dentro dessa configuração política, a casa, a mulher e a infância, são excluídas dessa estrutura política. Lembrando do Henrique falando dos arranjos, a molecada aqui gosta de skate. E a cidade não é a mesma pra quem anda de skate. Um banco, um corrimão ganha outra forma. Há toda uma filosofia, um uso implicada no role de skate da cidade. Interessante, que com o skate isso fica bem mais claro, dos usos comuns. Mas a impressão que eu tenho é de que cada atividade diferença adicionam camadas à experiência da cidade. Ou complexidade a ela… O corpo também passa por essas \”incrementações\”. Sobre a domesticidade, eu tava pensando no próprio processo educativo, eu percebi o quanto eu fui de uma maneira domesticada nesse sistema de ensino, de ir pra escola, fazer trabalho, biblioteca, de tal forma que não ter uma sala de aula é muito louco, pensar essa capacidade de adaptação. O que é uma casa? E eu pensei no terreiro. E o terreiro é dentro da casa da minha vizinha, mesmo ela tentando separar. E isso muda completamente a rotina da casa, não só nos níveis mais materiais. Parece que tem uma implosão do público e do privado. Acho que a Angelina pensa numa coi
sa crucial assim, que essa noção de casa é uma experiência de um grupo de consumidores de classe. Como é pensar a domesticidade também em outras realidades, outra organização? Na etnologia ameríndia, a categoria domesticidade não é muito usa, mas domesticação sim. Nos mundos ameríndios tem algo interessante que é uma separação entre ação e agente. O agente não é aquele que \”realiza\” a ação. Também tem algo bonito nos mundos ameríndios é que é uma espécie de radicalidade da consubstancialidade. Uma rede de parentesco é uma rede de gente que pensa uma na outra e pensar é cuidado. Os ameríndios fazem parentes pensando neles, e pensar é compartilhar comida, compartilhar uma mesma casa, estar junto. E em muitos idiomas indígenas, pensamento é sangue e pensamento, de fato, é o que circula, não é algo que fica no cérebro. Então fazer parentes é compartilhar sangue/pensamento. A domesticidade também foi uma forma da colonialidade organizar as relações de parentesco. Ela permitia a separação entre os filhos legítimos e ilegítimos dos homens colonizadores (e isso permitiu, como fala o Mbembe, uma experiência de um gozo perverso por parte dos homens colonizadores). Um dos desafios de pensar a domesticidade, portanto, é pensar no que a gente reproduz, quando nos reproduzimos. Há uma comunidade mapuche sexo-dissidente que diz: \”Eu e minhas irmãs não vamos nos reproduzir, mas pensamos em como continuarmos\”. Isso é uma reflexão bastante importante. Pensando agora no que você disse, Bru, eu li hoje, que 7 entre 10 estupros acontece dentro de casa, por familiares. Faz a gente se questionar que casa é essa, que parentesco é esse? 1/3 das violencias registradas acontece dentro da familia. A familia é um lugar de produção de violência significativo. Alimentação como convite da natureza para migrar de casa, de corpo em corpo… Ninguém na terra tem uma casa. Ouvindo Lucas e Bru, parece que a linguagem não bate. Os povos nipônicos que vieram para o Brasil, nunca foram considerados indígenas, mas minha avó nasceu na Hokkaido colonizado, mas ainda sim numa aldeia do povo Ainu. Ela dizia: O império não gosta da gente. Eu não sei muito discernir, o que é ainu, o que é japonês; o que é ocidental em mim mesma. Depois de pedalar até a casa do meu pai eu me joguei na grama, e fiquei pensando sobre treinar o corpo na carne da grama, da aranha, da ancestralidade, etc. Essa língua ameríndia-nipônica é evitar a se deixar subordinar por essa linguagem ocidental. Um agenciamento de si para o outro e não o contrário, a melância me ensina a ser carne. Vou puxar outro fio de conversa. O pessoal da arquitetura, que é muito bom em inscrever de uma maneira as normatividades em concreto. Nessa trama de casa-corpo-planeta, a cidade é um diagrama de como essas coisas se organizam e permite a gente se defrontar com questões do capitoloceno, antropoceno e das plantationcenos. E pensar como o que parecia um momento de reflexão no começo da pandemia e como parece que com o tempo ficou que a casa-cidade desorganizou nossas formas de responder à situação pandêmica. Mas também é importante pensar sobre as muitas redes emergiram e avançaram nesse contexto, para investigar essa forma casa-cidade. Eu tinha uma coleção de imagens dessas casa que tem estruturas muito diversas, pois não foram projetadas por engenheiros, arquitetos. A história do samba ajuda a pensar espacialidades outras. Saiu uma pesquisa que mostra que mais da metade da população de São Paulo quer sair da cidade. Também precisamos lembrar que habitar outros espaços que não a cidade, para nós que vivemos na cidade, nem sempre é muito fácil. Esse ponto nos ajuda a pensar na necessidade de não desmaterializarmos os processos, os corpos, as experiências quando investimos na necessária tarefa de desessencializar e desnaturalizar. Nossos corpos já estão moldados pela arquiteturas da cidade, e as outras arquiteturas, como as arquiteturas farmacopornográficas de que fala o Preciado. E isso talvez nos ajude a pensar nossas resistências, mas tbm sobre como certos corpos parecem se tornar mais disponíveis para as variações, para as mudanças.
Em nosso próximo encontro da Zona de Contágio, dia 3/12, às 19h, vamos conversar em torno do tema: \”Respirar e políticas do Vivente\”
Em seu último ensaio, Brutalisme, Achille Mbembe lança algumas pistas importantes para pensar o mundo de emergências confluentes em que vivemos hoje. Se a humanidade se constitui como força geológica planetária, ele diz, não podemos mais falar em \”história\”, mas, a partir de agora, toda história é necessariamente geo-história – incluindo a história dos poderes.
Mbembe chama atenção também para a dimensão molecular e química desse processo. A toxicidade, o filósofo defende, é uma dimensão estrutural do presente que afeta não apenas a terra, as águas, criaturas, mas também os corpos humanos. Visto por esse ângulo, a função dos poderes contemporâneos é a de, como nunca antes, tornar possível a extração. É uma \”dialética da demolição\”, da \”criação destruidora\” que alveja os corpos, os nervos, o sangue e o cérebro de humanos e outras criaturas: \”um gigantesco processo de despejo, remoção, evacuação forçada\”.
A asfixia também tem sido a arma das \”forças de segurança\” e policiais contra os corpos pretos; arma de contenção e administração de zonas de mortes. O mundo pandêmico, produzido pelas novas tecnologias e ciências da monocultura e do extrativismo é também o mundo \”balcanizado\” das grandes metrópoles, fabricado, por sua vez, por tecnologias racializadas de vigilância e extermínio. De George Floyde até João Beto Freitas; passando pelo mapa racializado dos que mais sofreram pela crise sanitária que vivemos: o que está em jogo é uma evidência escandalosa da impossibilidade de respirar.
A respiração é uma condição do vivente que revela sua mutualidade constitutiva: a inspiração de uma pode ter sido a expiração de outra. Desde uma perspectiva atmosférica não é mais possível conceber corpos individualizados, encerrados e acabados – o que constitui a comunidade sempre precária e instável dos viventes é uma delicada interdepedência ecológica em movimento e variações permanentes: só pensamos o mundo porque somos o mundo e somos o mundo quando respiramos com ele. Por isso, a impossibilidade de respirar pode também ser entendida como o esgotamento das possibilidades que o mundo colonial tem de permitir as tramas que sustentam a respiração dos viventes. Esse mundo está em combustão – diz Mbembe – cabe a nós nos implicarmos, em meio às cinzas e à fumaça, na tarefa da vida: a tarefa de investigar o que restou, o que está danificado, o que pode ser recuperado, o que precisa ser abandonado – e o que pode ainda \”vingar\”, como se diz das plantas. O que será necessário para retomarmos a terra e sua capacidade de sustentar a respiração? Como seria pensar uma política que expressasse uma nova sensibilidade subversiva a partir dessa comunidade instável e precária dos viventes? Quais coreografias de revoltas, lutas, pensamentos para que a força de conspirar – como respirar junto – possa ser retomada? Quais as novas conflitualidades que emergem a partir da criação de uma política respiracionista (e suas tecnologias e ciências) contra aqueles que asfixiam e interrompem a possibilidade ecológica da vida interespecífica com suas ciências, tecnologias e poderes de extração?
Conversações febris: Quinta-feira, 19 de novembro as 19hs
A intrusão viral covid-19 produziu uma série de atravessamentos e colapsos nos nossos modos de ser e estar no mundo. Colapsos mundificadores e modificadores de escala que nos lembram que mesmo entre tantos humanos, existem escalas que nos perfuram e nos invadem, escalas moleculares-bacterianas-virais-simbióticas-parasitárias, escalas que atrelam o menor dos organismos aos Estados nações, ao capitalismo moderno e suas inúmeras plantations, à vida nas ruas da cidade ao #FiqueEmCasa, ao aqui e agora.
Experimentamos também, junto ao luto (ou falta dele) de milhares de mortos pela covid19, uma incapacidade coletiva de habitar este acontecimento naquilo que ele nos interroga sobre as cumplicidades entre os diferentes regimes de poder (cispatriarcal, colonial, racista, antropocêntrico, capitalista, …); e naquilo que ele nos incita acerca dos modos pelos quais somos parte do problema a ser respondido.
Que agora, boa parte do debate público esteja limitado aos conflitos em torno da produção da vacina, é um sintoma de que os sentidos da vida (individual e coletiva) neste planeta estão reduzidos a um problema biomolecular, cujo tabuleiro está sendo construído e definido na confluência da Ciência&Tecnologia Corporativa e das disputas geopolíticas, uma aliança capitalista infernal entre corporações privadas e estados nacionais.
Interrogar a crise sanitária-ambiental como um problema da nossa civilização, implica em insistir na radicalidade das relações de interdependência entre diferentes processos que participam da criação do fenômeno covid19.
É preciso considerar as longas cadeias produtivas e seus arranjos sociotécnicos: do vírus à plantation transnacional; da extração de minério colonial para a confecção de chips e celulares; do agro-tôxico-transgênico-negócio ao prato na mesa; das infraestruturas de comunicação, as mediações algorítmicas e as interfaces da modulação existencial; das biomoléculas à informatização da vida; das turbinas de Belo Monte, das vidas submersas à tomada 110V de nossas casas.
Retomar a vida, reconquistar a possibilidade de um futuro não programado, florescer mesmo ali onde o solo é radioativo, acontece ali onde se cultiva e se avança tateando, ao mesmo tempo inventando, sustentando e defendendo um território comum. Para acompanhar essas tramas e desvios, nutrimos uma ciência dos dispositivos que investiga os poderes e suas técnicas, ao mesmo tempo em que praticamos uma ciência das retomadas, através de perguntas de nos implicam com os grandes problemas e que ampliam nossas potência de imaginar, desejar e criar.
Em nossos fazeres cotidianos e em ações de diversas coletividades, há diversas experiências de tensionamento da monocultura técnica e tecnológica que organiza nossas vidas. Há uma pluralidade de éticas-estéticas (decoloniais, antiracistas, contra-heterossocial…) que se atualizam em formas de vida, e cada uma delas é indissociável da produção e da sustentação de um mundo comum e suas infraestruturas. Há, portanto, cosmotécnicas distintas que produzem mundos diferentes.
Cosmotécnicas e tecnopolíticas: investigar e narrar as experimentações e lutas de fabricação de mundos.
\”A pandemia me forçou a habitar o mesmo lugar de uma forma radicalmente diferente. Agora já não habito o mesmo mundo.\”
A experiência pandêmica nos proporcionou o colapso sincrônico entre as escalas planeta-casa-corpo. Fronteiras e divisões que pareciam fixas se atualizam e se reconfiguram; revelando sua falácia e artificialidade. O contágio, o transbordamento, as interdependências estão por toda parte. A situação nos convoca a inventar outros corpos, outros regimes de sensibilidades, outras formas de ser e conhecer. A suspensação inicial da rotina, nos primeiros momentos da pandemia, visibilizou a fina trama das infraestruturas das cidades, da casa e dos trabalhos invisíveis que sustentam a vida comum.
Com a continuidade da situação pandêmica, a organização da vida previamente existente se intensifica através de velhos e novos dispositivos de governo da nossa existência. Entre o mito da casa-refúgio e o vivido na casa-fábrica-escola-prisão há uma pletora de experiências com os mecanismos de controle mas também de criação de novos ritmos, desvios, alianças e insubmissões: devir-selvagem.
A mistura corpo-casa-planeta cria novos conflitos sobre velhos divisores. Queremos descrever e narrar as práticas pelas quais o tempo de trabalho e o tempo de não-trabalho torna-se cada vez mais indistinto; contar como o público-estatal e o privado-capitalista se organizam na trama casa-família-estado-corporação; Que corpo a casa faz? Como a casa se torna uma rígida fronteira que separa o \”dentro\” do \”fora\”? investigar as atualizações da monocultura – plantation – em arquiteturas e formas de habitar que produzem o regime heterossocial, seus corpos, seus funcionamentos generificados; sentir como o desenho da forma-cidade, suas infraestruturas e assimetrias se manifestam a partir de uma experiência onde morar já não é a mesma coisa.
Domesticidade é a noção disparadora do próximo encontro investigativo da Zona de Contágio (05/11). Quinta-feira 05/11 às 19hs:
***************************************************************************** Sobre o percurso:
Desejamos aproveitar os encontros virtuais como momentos de criação e discussão coletiva, para adensar nossas pesquisas a partir das práticas de conhecer que caracterizaram a Zona de Contágio: um laboratório de investigação e produção coletiva; interpelada pelo acontecimento pandêmico, feito a partir de muitas experimentações que atuaram nos limites das nossas formas de produzir conhecimento, nas impossibilidades-possibilidades da produção de uma presença diante da tela, na confluência de uma ciência dos dispositivos e de uma ciência das retomadas.
Em cada encontro, neste ciclo final, teremos a ativação de uma trama investigativa inspirada por uma noção disparadora. Essa trama é feita das diversas perspectivas que alimentam nossa experiência em torno dessa noção e que possam constituir fios investigativos sobre o acontecimento pandêmico. É uma trama feita de corpos-territórios-saberes-poderes-tecnologias; na descrição dos dispositivos de poder e das diversas práticas de esquiva, alianças, ritmos e suas encruzilhadas.
Pensamos que cada noção, em cada encontro, será disparadora de criações individuais e coletivas que irão compor a publicação, mas também poderão alimentar outras obras de autoria múltipla feitas de muitos fragmentos (novos ou reapropriações de trabalhos que compuseram o percurso da Zona de Contágio). Para este encontro da próxima quinta-feira (05/11) ativaremos uma segunda trama em torno da noção de Domesticidade.
Até lá queremos trocar materiais que possam compor o encontro: imagens, textos, outras pesquisas, áudios, vídeos, conversações, artefatos que possamos seguir desdobrando em criações até a ativação da próxima trama. Para essas trocas mais ágeis que compõem os encontros podemos utilizar a lista de email ou o grupo do telegram: Enviaremos aqui também um link para o drive que serve como repositório de materiais (fragmentos, rascunhos ou criações finalizadas) para a investigação coletiva e publicação final:
Como seguir criando perguntas e narrativas que habitem a Pandemia Covid19 com a radicalidade que ela nos força a pensar, mantendo a abertura e a vibração deste acontecimento? Como investigar coletivamente resistindo à paralisia das formas institucionais de pesquisa, nos aliando com lutas e movimentos da vida e da terra que não estão na universidade?
Desejamos que o exercício criativo seja inspirado pelos afetos que constituímos e que sustentaram a formação desse coletivo improvável e implicado em problemas comuns. Queremos insistir na experimentação ontoepistemológica que atravessou a realização de todos os nossos encontros e pretendemos que essa publicação dê consistência a este corpo-sensor-coletivo capaz de deslocar a política do sensível, criando outras condições de sensibilidade, percepção, objetividade e análise. Neste fazer, outros fatos e evidências são fabricadas simultaneamente à constituição do laboratório enquanto uma comunidade política e epistêmica temporária.
\”A empresa monocultora foi o motor da expansão europeia. As chamadas plantations produziram a riqueza – e o modus operandi – que permitiu aos europeus dominarem o mundo. Fala-se em tecnologias e recursos superiores, mas foi o sistema de plantation que tornou possível as frotas marítimas, a ciência e mesmo a industrialização. As plantations são sistemas de plantio ordenado realizado por mão de obra de não proprietários e direcionados à exportação. As plantations aprofundam a domesticação, reintensificando as dependências das plantas e forçando a fertilidade. Tomando de empréstimo da agricultura de cereais promovida pelo Estado, investiu-se tudo na superabundância de uma só lavoura. Mas faltou um ingrediente: removeu-se o amor. Ao invés do romance conectando as pessoas, as plantas e os lugares, os monocultores europeus nos apresentaram o cultivo pela coerção\” A. Tsing
tomar a imagem da monocultura a partir das diferentes figurações e construir uma paisagem comum sobre a monocultura: o que estamos falando ou estamos vemos quando pensamos em monocultura? Quais são seus elementos constitutivos?
Lembrei do Hijikata Tatsumi. Era dançarino de Butô ou Ankoku Butô (\”dança das trevas\”). Aí, num dos diários dele, cacei uma citação agora: \”É dito que Deus não existe no Japão, mas o que substitui Deus, por exemplo, é a vida cotidiana – ela existe ao nosso redor e os japoneses são capazes de captá-la. Só não se deve enganar o cotidiano. E os japoneses são dotados de uma capacidade de lidar com esse conflito (…). O conceito de carne é anárquico entre os japoneses\”(HIJIKATA apud UNO, 2018:138).
a carne é o excesso. excesso e desobediência ao corpo orgânico/biológico
Quem escreve sobre Tatsumi Hijikata é o filósofo Kuniichi-Uno, amigo do dançarino de Akita, última província antes da ilha de Hokkaido. Hijikata emigra para Tóquio no contexto dos deslocamentos de camponeses, agricultores e povos indígenas do norte do Japão para as províncias industriais. Deslocamento marcante no início período Meiji até os anos do pós-guerra. Em Tóquio ele se envolve com os movimentos filosóficos e cria o butô, uma metamorfose contínua do corpo. Hijikata tinha características étnicas dos povos do norte do Japão: o que o fazia ser tido como um \”caipira\” em Tóquio. Citação do diário de Hijikata, sobre o processo de uma coreografia que chamou de Dançarina Doente: \”Em 1938, nas regiões de monocultura do nordeste (Tôhoku), existia uma espécie de oclusão anal. O grito (das crianças) estava silenciado na cultura preservada. Esse grito é um acompanhamento importante de minha dança hoje. Foi um grito primitivo do qual eu posso rir, hoje, após doze anos de vida em Tokyo. Eu saboreio esse grito e o fundo de gestos ritualizados através das minhas observações da vida cotidiana. Eu invento os passos moldados de nossos dias a partir da terra negra onde dançar não é voar. Meu mestre de dança é a terra negra do Japão\” (HIJIKATA apud UNO, 2018: 33).
traz a lembrança de como somos pensados pelas bactérias. De como o intestino é um segundo cérebro, o lado visceral da gente. E na boca vai mastigando cada vez menos sabores. Paragens no paladar. Paragens na pluralidade de alimentos possíveis advindas da Revolução Verde. Um mundo preenchido de pasto, soja, milho, cana, trigo e mais meia dúzia de plantas industrializadas até em sua genética. A monocultura dentro do boca reduz as possibilidades da flora intestinal.
A monocultura produzindo monotonias paisagísticas. Plantação de paisagens monoculturais. Nuvens de fuligens. Nuvens de gafanhotos. A civilização como projeto de eliminação de diversidades. Ruralidades industrializadas. A voracidade do capital e a voracidade dos gafanhotos. Os parasitas do capital financeiro produzindo uma imensa biodiversidade de vírus mortais. A eliminação das últimas áreas selvagens do mundo pela lógica tautológica do cifrão. A subida da bolsa e a queda do céu.
Dizer uma palavrinha sobre a questão das árvores trazida pela Ju a partir da leitura que ela está fazendo da queda do céu. Ela retoma a insistencia de kopenawa das capacidades perceptivas e de como temos uma percepcão reduzida. Há uma polifonia interessante no grupo: a ancoragem do corpo, a questão da música.
A gente vive um estado da arte – falo sobre a arte do sistema – que faz a gente viver uma plantation cultural (por parte das instituições), vivemos também pela digitalizacão da cultura. A monocultura traz algo muito forte, e que é seminal para seu funcionamento que é a separação da natureza e da cultura. Essa separação nos fez colocar uma coisa em detrimento da outra e não em relação à outra. A diversidade cosmopolítica que estamos colhendo aqui está no mundo, mas nosso corpo não expressa, pois nosso core/código o separou de tal forma que nos faz construir um mundo tal como ele se coloca.
Por mais que imaginemos outras possibilidades, não praticamos essas possibilidades. Eu revoltei quase como um furacão como não favorecer essa monocultura?
É gostoso ouvir tanta gente diferente. Pensar as dimensões da monocultura [ agora, aqui em casa, acaba de acontecer um ataque terrorista da cigarra sobre um cachorro que se compôs junto com a fala do Gustavo] Quando a gente começou a achar que os insetos são menores do que a gente? Quais as árvores que são menores que a gente?
Porque a monocultura tem um certo silêncio. A floresta produz uma paisagem sonora muito mais rica que a da monocultura.
mesmo os \”regionalismos linguísticos\” como uma resistência às monoculturas
>> Um exercício: trazer outras vozes e outros silêncios como um exercício de quebrar monoculturas de comunicação, de produção de conhecimento.
Pensar no Mario, personagem do jogo da Nintendo, ele vive num reino dos cogumelos, um reino independente que está sob o perigo de ser dominado pelo Bowser – uma tartaruga desenvolvimentista que quer fazer uma monocultura de cogumelos.
Como delimitar o que seria a monocultura? Como chegamos num exercício de uma monocultura em comum?
Pensei na ideia de hapticidade do Moten e Harney que tem a ver com a pele, com o que sentimos. A pele é o contrário do cérebro, o cérebro é uma monocultura do pensamento. A pele é o maior órgão do corpo que está sendo usado apenas para tocar telas (touch-screen). Como ser mais superfície e menos volume? A dança é o pensamento do corpo, e se a gente pensa com o corpo, nosso pensamento seria dançado. A questão da contraposição entre volume e superfície para mim é uma questão que esbarra no tempo.
O que é monocultura me fez pensar na monocultura a partir da Vandana Shiva. Ela diz que é uma ideologia dominante que opera para dar cabo às várias formas de diversidade. Ela conectou com a ideia de corpos que não são mais capazes de dar o grito do butô. Ela recomendou um livro do João Barbosa Rodrigues – um dos precursores na defesa dos conhecimentos indígenas. Esse é um exemplo da expropriação dos commons.
Fiquei pensando na monocultura como uma cultura do mono. O que a gente perde quando não consegue mais se acocorar? A gente consegue rastejar? Consegue ser cobra? Ser macaco? Retomar o primata.
>> Um exercício: Usem os livros como apoio para os calcanhares, um apoio para acocorar. A gente acha que tá aprendendo, mas na verdade tá desaprendendo a ficar de cócoras.
Lembrar: O pensamento selvagem é aquele que se recusa a se tornar recurso.
Quero retomar um pouco a proposicão inicial de habitar uma paisagem comum entre a gente. Possibilidade que potencializa as diferenças. Máquina abstrata de correlação. Quando apareceu a monocultura para essa discussão, isso me gerou um curto-circuito. O que tem me interessado são os modos de percepção: massificação de um conjunto de tecnologias, os regimes de sensibilidade em relação aos diferentes arranjos tecnológicos. Quando a gente passa a falar das BIGTEC de comunicação digital, elas são um grande éter mundial de mediação de uma monocultura. Junção de uma arquitetura material e de linguagem: é o semiocapitalismo. Nisso, a questão do imaginário é outra camada que está colocada: que imaginação é ainda possível?
A internet é uma baita de uma monocultura: tudo feito de 0 e 1.
Lembrou de um filme Life Out of Balance que tem várias imagens sobre monocultura: aceleração da imagem das pessoas saindo do metro junto com imagens de salsichas sendo produzidas.
Isso de fazer da cócoras uma imagem de pensamento, uma localização de pensamento. Nos leva a pensar o que seria produzir um modo de existência próximo ao chão. A gente tem que ficar de cócoras quando vai mexer na terra, nas plantas.
Acocorar também é um processo narrativo: lembro da minha batchan, que ficava muito de cócoras. Ela passava muito tempo de cócoras e tinha uma hortinha. Ela tinha um modo de dizer das coisas que era um jeito muito cotidiano mesmo; inclusive nos trejeitos dela de contar dos aspectos não humanos da ancestralidade de todas as coisas: toda a proliferação de coisas das quais somos ancestrais. A gente é ancestral dos insetos que foram encontrados na folha de alface, do mofo, de todos os lixos, das coisas que a gente cheirou, passou a mão. Somos ancestrais das roupas das pessoas que esbarramos no metrô. A gente é ancestral até do que a gente caga. A ancestralidade é mais do que uma genealogia. Mas é preciso pensar no cotidiano, pensar agachado, matutar abaixada, como fazia a minha batchan.
A plantation opera com dois dispositivos: (1) cultivo como coerção, como imobilização, como impedimento do tempo livre; (2) a casa como dispositivo de produção de um corpo heterossocial. As mulheres brancas são convocadas a manter a pureza do lar, de garantir a separação entre o dentro e o fora – a pureza do lar é a própria pureza da raça no caso da plantation. A casa produz o corpo doméstico que está separado do fora.
o corpo é político
A separação entre público e o privado precisa ser criticada. Lembra da Calibã e a Bruxa e o livro da Carolyn Marchant, The death of nature. As imagens compartilhadas transmitem um quê de desorientação, desorientação programada, um bloqueio das percepções. Como seria retomar a fugitividade presente nas plantations? A plantation tem medo da festa, do encontro, da produção do tempo livre.
lembrando da Val Plumbwood, no olho do crocodilo\” A negação excepcionalista de que nós somos alimento para os outros se reflete em muitos aspectos de nossas práticas convencionais de morte e sepultamento – o caixão forte, convencionalmente enterrado bem abaixo do nível de atividade da fauna do solo, e a laje sobre a sepultura para evitar que qualquer coisa nos desenterre, supostamente evita do corpo humano se tornar alimento para outras espécies. \”(…)Para um ecológico, materialista animista, no entanto, a vida após a morte é uma presença ecológica positiva, pois possibilita deixar traços positivos na vida de outras espécies – não uma história, mas a continuidade da história.\”
sobre a instalacão de fábrica da Ford na Amazônia. Tem uma fala do H.Ford: ele via essa floresta e ficava perturbado pela disposição das árvores. Enquanto as monoculturas de pinheiros, todas ordenadas, lhe dava conforto.
Peter Webe: Cada pessoa quando entra na floresta é atraída por uma árvore, por uma forma, por uma coisa diferente.
Lembrar das brincadeiras (de imitar bicho) e do maracatu, quem toca maracatu é brincante.
O que vem junto com a monocultura? Eu trabalhei 5 anos em uma empresa de desenvolvimento de tecidos. A monocultura é algo frágil e há um aparato para manter a fragilidade através da criação de vazios. Mas vazios envenenados que é tolhido de possibilidades. Precisamos pensar nas Terminators: sementes que não se reproduzem. Desde o começo do plantio, quando você tem que limpar a terra — e o que se faz hoje é envenenar a terra — o que se produz é um vazio que não é uma miríade de possibilidades, mas um vazio envenenado, um vazio tolhido de possibilidades, um vazio que é todo recortado. Conforme as plantas vão crescendo, o vazio de possibilidades precisa ser perpetuado para que seja mantido uma possibilidade única — estou imaginando aqui a soja tratada com glifosato — e os mecanismos para se manter esse vazio de possibilidades são inúmeros, desde a aplicação de uma molécula química, desde o gene inserido para gerar uma variedade particularmente resistente a esse ambiente, que vai tolerar esse ambiente, que vai possivelmente não permitir a reprodução de outras espécies, como dos insetos que não vão conseguir se alimentar daquela planta. E não só antes e durante a colheita, mas após ela, também se aplicam produtos que vão inviabilizar que no solo que permanece seja plantada qualquer coisa que não aquela que estava plantada antes. É isso, eu vejo um monte de esforços no campo da ciência da agricultura para produzir esses vazios, pois é uma condição necessária para produzir o mono. A monocultura precisa desse vazio condicionado para esse único.
Um dos problemas que estou pensando no doutorado é a possibilidade de reemergência de um mundo mapuche que foi destruído ou deixado em ruínas pela colonização e, entre outras coisas, isso passa por discutir o retorno dos bosques e das florestas nativas em terrenos que tinham sido cooptados por colonos e por empresas de capital internacional. Então, a primeira coisa que gostaria de pensar com vocês aqui, é esse uso da palavra monocultura que permite que a gente utilize a ideia de cultura com esse duplo sentido: como algo que diz respeito à diversidade humana quanto também à diversidade de seres não humanos. Em ambos os sentidos da ideia de cultura, ainda lidamos com o problema do controle. Assim, falar de monocultura para mim é necessariamente falar da substituição de um regime de diferenças por um regime de controle e isso é super interessante, pois se conecta bem com um dos pontos que tinha sido levantado: que a agricultura, no estilo monocultura, não é uma invenção banal, ela foi inventada pelas mesmas pessoas que inventaram coisas como o estado. Porque, justamente, em ambos os sentidos, isso tem a ver com a ideia de produzir equivalências entre as diferenças para poder controlar os regimes de proliferação fazendo com que as pessoas não encontrem caminhos para se proliferar ou encontrar escapes. Partindo desse lugar de trabalho e de pensamento com companheiros no sul do Chile, dos Mapuche, acho importante, sim, falar em linhas de fuga, de possibilidades, de falar de algum modo de resistir. Mas também de reconhecer que os custos dessas linhas de fuga e dessas resistência são assimétricos, desequilibrados. Tem uma socióloga boliviana, a Silvia Rivera Cusicanqui que diz que adora quando fica lendo coisas sobre decolonialidade, sobre descolonização, pois o lugar de quem fala na academia é um lugar pouco custoso de transformar esse lugar da resistência, da linha de fuga, num lugar para pensar. Ela diz que a produção dessas coisas efetivas da linha de fuga, da resistência, precisa ser feita na prática. Como a gente faz isso?
A Terra sendo perseguida pelo homem: isso é a plantation.
Abigail Campos Leal provoca: o que é pensar alianças quando a gente recusa o lugar da humanidade? Será que temos sempre que aceitar a figura do humano como ponto de partida? podemos existir de outros modos que não o modo humano? É importante pensar a ideia de limpeza quando pensamos nas monoculturas. As agroflorestas produzem podas para que pedaços caiam no chão.
No livro do Ailton Krenak, “Ideias para adiar o fim do mundo”, quando ele fala que a ideia de krenak não é exatamente a ideia de humano como concebemos, mas sim uma formação entre cabeça (kre) e terra (nak) — os Krenak, aqueles que se chamam “nós, os Krenak”, são “nós, cabeças-terra” —. Aí ele fala sobre justamente como no momento que a gente transforma as montanhas e os rios em natureza, a gente acaba transformando essas coisas em recursos passíveis de serem espoliados. E por que ele tá dizendo isso? Porque para o nosso regime o humano faz parte de um conjunto de problemas, enquanto rios e montanhas são parte outro conjunto de problemas. Acho isso superinteressante, porque, no fundo, tem uma concepção de ser gente que não tem a mesma preocupação que a ideia de humano e, no entanto, o que a monocultura faz, é transformar os índios em humanos. Assim, quando falamos sobre regimes de sensibilidade, regimes de percepção precisamos lembrar também dessas outras formas de se ser gente.
Helio Oiticica: devolver o corpo a terra. devolver terra ao corpo.
lembrar: as ocupações que mais crescem no mundo, em termos de trabalho mal-remunerado e subalternizado são os trabalhos da indústria da limpeza e os de segurança.
pensar: a imagem de uma fruta com terra, minhocas – nada aí parece limpo mas é ao mesmo tempo cheio de vida, de possibilidades
Quando penso em monocultura penso no algodão e daí podem surgir as tramas, os tecidos.
Quero retomar a perspectiva do conflito. Estamos falando de uma guerra de mundos. Os projetos de monoculturas são projetos de morte, de uma morte coletiva.
Como os parasitas operam controle populacional (contra a monocultura). O fim e a diversidade.
Eben Kirksey (imagem do parasita de Serres) Parasita como gerador de diversidade; Cordíceps e as formigas-cipó… diferentes tipos de cordíceps: https://youtu.be/6B2tfDg4BJk
Que fim e que morte opera na monocultura e nas culturas da multiplicidade/diversidade? Quais recursos que as espécies tem pra evitar seu fim?
cigarra e criaturas que atravessam e interrompem ou mudam o curso da conversa
MONO
MASTOZOOLOGIA•MAMÍFERO
design. comum aos macacos em geral e, em particular, aos primatas antropoides, destituídos de cauda e dotados de longos braços, como o chimpanzé, o orangotango, o gorila e os gibões
Em nosso ultimo encontro conversamos sobre a realização de uma pesquisa e publicação coletiva e discutimos uma proposta de organização para os próximos 5 encontros. A seguir, apresentamos um possível roteiro para esta caminhada investigativa a partir do que emergiu neste último encontro.
Desejamos aproveitar os encontros virtuais como momentos de criação e discussão coletiva, para adensar nossas pesquisas a partir das práticas de conhecer que caracterizaram a Zona de Contágio: um laboratório de investigação e produção coletiva; interpelada pelo acontecimento pandêmico, feito a partir de muitas experimentações que atuaram nos limites das nossas formas de produzir conhecimento, nas impossibilidades-possibilidades da produção de uma presença diante da tela, na confluência de uma ciência dos dispositivos e de uma ciência das retomadas.
Para cada encontro teremos a ativação de uma trama investigativa inspirada por uma noção disparadora. Essa trama é feita das diversas perspectivas que alimentam nossa experiência em torno dessa noção e que possam constituir fios investigativos sobre o acontecimento pandêmico. É uma trama feita de corpos-territórios-saberes-poderes-tecnologias; na descrição dos dispositivos de poder e das diversas práticas de esquiva, alianças, ritmos e suas encruzilhadas.
Pensamos que cada noção, em cada encontro, será disparadora de criações individuais e coletivas que irão compor a publicação, mas também poderão alimentar outras obras de autoria múltipla feitas de muitos fragmentos (novos ou reapropriações de trabalhos que compuseram o percurso da Zona de Contágio).
Para este encontro da próxima quinta-feira (22/10) ativaremos uma primeira trama em torno da noção de Monocultura.
Link para sala – 22/10 – 19hs:
Até lá queremos trocar materiais que possam compor o encontro: imagens, textos, outras pesquisas, áudios, vídeos, conversações, artefatos que possamos seguir desdobrando em criações até a ativação da próxima trama. Para essas trocas mais ágeis que compõem os encontros podemos utilizar a lista de email ou o grupo do telegram:
Enviaremos aqui também um link para o drive que servirá como repositório de materiais (fragmentos, rascunhos ou criações finalizadas) para a investigação coletiva e a publicação final:
Como seguir criando perguntas e narrativas que habitem a Pandemia Covid19 com a radicalidade que ela nos força a pensar, mantendo a abertura e a vibração deste acontecimento? Como investigar coletivamente resistindo à paralisia das formas institucionais de pesquisa, nos aliando com lutas e movimentos da vida e da terra que não estão na universidade?
Desejamos que o exercício criativo seja inspirado pelos afetos que constituímos e que sustentaram a formação desse coletivo improvável e implicado em problemas comuns. Queremos insistir na experimentação ontoepistemológica que atravessou a realização de todos os nossos encontros e pretendemos que essa publicação dê consistência a este corpo-sensor-coletivo capaz de deslocar a política do sensível, criando outras condições de sensibilidade, percepção, objetividade e análise. Neste fazer, outros fatos e evidências são fabricadas simultaneamente à constituição do laboratório enquanto uma comunidade política e epistêmica temporária.
Durante os últimos seis meses na Zona de Contágio, produzimos um espaço de reflexão, intercâmbio de experiências, circulação de textos, relatos e perspectivas face à emergência pandêmica. Como Laboratório de experimentação (onto-epistêmica e política) a Zona de Contágio vem se constituindo como um lugar de confluência entre pesquisadores, criadores e todas interessadas na Guerra das Ciências, nos novos embates e controvérsias que se relacionam com as tecnologias na produção de mundos, política e natureza, mas também nas lutas e práticas de conhecimento do mundo por vir.
Orientados por dois grandes eixos: Ciência dos Dispositivos e Ciências de Retomada, pensamos sobre a reorganização dos poderes tecnototalitários e algoritmizados das nossas vidas, casas, universidades e cidades no que diz respeito ao \”isolamento social\”, trabalho remoto, \”educação à distância\”; domesticidade e o conjunto de relações que nos constitui; Refletimos também sobre produção de saberes e conhecimentos não proprietários que se voltam à terra, ao ritmo, ao corpo, às muitas formas de cooperação para pensar, produzir e sustentar tecnologias do Comum nos interstícios do Capitaloceno e sua tecnopolítica.
Nos próximos quatro meses (6 encontros), e a partir dos experiências e conhecimentos que tivemos nesse período, gostaríamos de nos concentrar na sistematização e produção de uma investigação coletiva que possa se desdobrar em uma publicação (on-line).
A idéia é que cada pessoa (ou mais de uma) poderá propor e realizar um ensaio-investigativo para compor a publicação final. Pensamos em algo simples, curto, e que não conflita com todos os outros trabalhos e tarefas que já temos que dar conta, mas que expresse o encerramento de um ciclo de trocas e pensamentos que experimentamos na Zona de Contágio.
Partiremos de uma pergunta comum: O que pode uma ciência terrana diante do fim do mundo como conhecemos?
A cada encontro, gostaríamos de adensar esse processo pensando juntas as etapas que compõem a fabricação do conhecimento coletivo face ao acontecimento pandêmico: definição de eixos temáticos; formas de pensar problemas e como permanecer um pouco mais com eles; modos de interrogar as formas modernas de separação entre sujeitos e objetos no que diz respeito à produção de conhecimento. Como a experiência pandêmica nos força a pensar? Como ela interroga e transforma o quê e como conhecemos? O que pode ser uma ciência que perturbe e desloque tanto as formas de produzir \”pensamento crítico\” a partir de \”denúncias\”, quanto as formas de produzir ciência como verdades incontestáveis. Também desejamos experimentar a confusão de fronteiras disciplinares (\”ciências da natureza\”, \”ciências sociais\”; \”ciências humanas\”). Desejamos refletir sobre pressupostos científicos como controvérsias: afinal, o que é um \”fato\”? ; Como produzir \”evidências\”? Como fazer da linguagem, do movimento e formas estéticas elementos fundamentais na produção e circulação de conhecimento? Como produzir uma ciência implicada e com habilidade de nos permitir responder às questões urgentes que nos interpelam? Como produzir uma ciência localizada que seja ao mesmo tempo incômoda aos poderes constituídos? Quais alianças ontoepistemológicas precisamos criar para produzir verdades cúmplices entre formas de luta e produção de conhecimento capazes de assumir a guerra de mundos que vivemos?
No próximo encontro, dia 8/10 às 19h, vamos discutir o percurso e adensar a pergunta inicial que move a investigação, como também pensar sobre novas perguntas que nos interessam nessa cartografia-investigativa.
O mundo como uma imensa teia de coreografias de existências em que os seres constituem-se mutuamente e ao mesmo tempo constroem o futuro. Para alianças com aqueles que não pensam como nós, que não pensam como humanos, ou que não pensam, precisaremos ser, além de eticistas-bricoleurs, coreógrafos.
No próximo encontro, dia 24/09 (19h), estaremos com Renzo Taddei, professor e pesquisador da UNIFESP.
LINK para sala:
A conversa pretende seguir tateando o mundo em que vivemos a partir das consequências ambientais-societais-biológicas da emergência do Antropoceno e como ele nos interpela em nossos modos de existência e regimes de conhecimento. Renzo propõe pensar a emergência do Antropoceno também a partir das \”transformações radicais na tecnosfera com o advento da inteligência artificial\”. Diante dos novos conflitos e possibilidades, Renzo convoca imagens sobre coexistência e coabitação que habitam os movimentos da dança:
\”Vivemos em um momento no qual libertar humanos de seus grilhões através da denúncia deixou de ser suficiente (apesar de ainda necessário); é preciso participar dos processos de construção de mundos; isso necessita ser algo maior do que o humano\”
A dança fala sobre movimento em equilíbrios sempre instáveis e impermanentes e \”talvez seja por isso que a dança tenha sido usada, em inúmeras culturas no decorrer dos tempos, como estratégia de conexão existencial entre coisas desiguais, como humanos e deuses, humanos e ecossistemas, humanos e animais, e humanos em situação de diferença (de gênero, por exemplo)\”. Pensar o mundo como tramas de coreografias de coexistência, simbioses e novos movimentos de futuro.