Respirar e Políticas do Vivente

Em nosso próximo encontro da Zona de Contágio, dia 3/12, às 19h,  vamos conversar em torno do tema: \”Respirar e políticas do Vivente\” 

Em seu último ensaio, Brutalisme, Achille Mbembe lança algumas pistas importantes para pensar o mundo de emergências confluentes em que vivemos hoje. Se a humanidade se constitui como força geológica planetária, ele diz, não podemos mais falar em \”história\”, mas, a partir de agora, toda história é necessariamente geo-história – incluindo a história dos poderes.

Mbembe chama atenção também para a dimensão molecular e química desse processo. A toxicidade, o filósofo defende, é uma dimensão estrutural do presente que afeta não apenas a terra, as águas, criaturas, mas também os corpos humanos. Visto por esse ângulo, a função dos poderes contemporâneos é a de, como nunca antes, tornar possível a extração. É uma \”dialética da demolição\”, da \”criação destruidora\” que alveja os corpos, os nervos, o sangue e o cérebro de humanos e outras criaturas: \”um gigantesco processo de despejo, remoção, evacuação forçada\”.

A asfixia também tem sido a arma das \”forças de segurança\” e policiais contra os corpos pretos; arma de contenção e administração de zonas de mortes. O mundo pandêmico, produzido pelas novas tecnologias e ciências da monocultura e do extrativismo é também o mundo \”balcanizado\” das grandes metrópoles, fabricado, por sua vez, por tecnologias racializadas de vigilância e extermínio. De George Floyde até João Beto Freitas; passando pelo mapa racializado dos que mais sofreram pela crise sanitária que vivemos: o que está em jogo é uma evidência escandalosa da impossibilidade de respirar. 


A respiração é uma condição do vivente que revela sua mutualidade constitutiva: a inspiração de uma pode ter sido a expiração de outra.  Desde uma perspectiva atmosférica não é  mais possível conceber corpos individualizados, encerrados e acabados – o que constitui a comunidade sempre precária e instável dos viventes é uma delicada interdepedência ecológica em movimento e variações permanentes: só pensamos o mundo porque somos o mundo e somos o mundo quando respiramos com ele. Por isso, a impossibilidade de respirar pode também ser entendida como o esgotamento das possibilidades que o mundo colonial tem de permitir as tramas que sustentam a respiração dos viventes. Esse mundo está em combustão – diz Mbembe – cabe a nós nos implicarmos, em meio às cinzas e à fumaça, na tarefa da vida: a tarefa de investigar o que restou, o que está danificado, o que pode ser recuperado, o que precisa ser abandonado – e o que pode ainda \”vingar\”, como se diz das plantas. O que será necessário para retomarmos a terra e sua capacidade de sustentar a respiração? Como seria pensar uma política que expressasse uma nova sensibilidade subversiva a partir dessa comunidade instável e precária dos viventes? Quais coreografias de revoltas, lutas, pensamentos para que a força de conspirar – como respirar junto – possa ser retomada? Quais as novas conflitualidades que emergem a partir da criação de uma política respiracionista (e suas tecnologias e ciências) contra aqueles que asfixiam e interrompem a possibilidade ecológica da vida interespecífica com suas ciências, tecnologias e poderes de extração?