foto: Carmen Capra
por Angelina Peralva
Talvez o fato mais significativo seja nossa incapacidade – pelo menos provisória – de imaginar um mundo comum (Latour e Charabatsky). Há imaginários em disputa no horizonte de uma pós-pandemia. Rosana Pinheiro Machado et al resenharam aqueles que despontam através da leitura da imprensa mainstream internacional (Piauí online). São imaginários high-tec, que aprofundam as desigualdades do mundo com estratégias de proteção acessíveis apenas aos que podem pagar. Estratégias que mudam tudo para que nada mude. Mas outros imaginários, orientados para a proteção do planeta, imaginários “terranos”, também estão presentes na disputa. A consciência ambiental parece ter avançado durante a pandemia. Eventos climáticos impressionantes estão ocorrendo em países que elegeram negacionistas radicais, como Trump e Bolsonaro, e eles coincidem com a crise pandêmica. Os imaginários “terranos” propõem modos de vida mais modestos, mais austeros, incompatíveis com a lógica do consumo ilimitado que pauta o capitalismo contemporâneo.
Das conversas que tivemos este ano, tenho vontade de retomar dois tópicos. O primeiro é o que surge da consciência de um vínculo entre pandemia, emergência climática e intoxicação dos organismos pela indústria química; o segundo interroga as condições políticas de existência de uma “universidade terrana”, microcosmo e possível vetor de construção de uma “sociedade terrana”.
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20 X 2020
Sobre o primeiro tópico, foi talvez o artigo de Luiz Marques (“A pandemia incide no ano mais importante da história da humanidade. Serão as próximas zoonoses gestadas no Brasil?”) que mais claramente afirmou essa tripla relação, sublinhando também a singularidade do momento que estávamos vivendo: o ano da pandemia, diz ele, é “o do mais crucial ponto de inflexão da história humana”. Ponto de inflexão porque todos os estudos científicos apontavam para o fato de que 2020 seria o ano-limite para um recuo do crescimento dos gases de efeito-estufa, antes que consequências catastróficas da emergência climática viessem a afetar o planeta. Segundo a Agência Internacional de Energia, a pandemia terá tido – a um custo humano brutal – um efeito positivo sobre essa trajetória. A redução dos GEE, suscitada pela desaceleração da economia, terá sido em 2020 “duas vezes maior que todas as reduções anteriores desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.
Salvo prolongamento dos efeitos da COVID-19, no entanto, nada garante que essa redução prossiga em 2021. A mesma timidez política que orientou até aqui diferentes governos, somada ao negacionismo climático de uma parte deles, prevalece em meio à pandemia pela incapacidade em imaginar outros mundos possíveis. Como alimentar populações inteiras de modo sustentável? Como abrigá-las? Como vesti-las? Como convencê-las de que nosso modo de vida tornou-se inviável? Como interromper, hoje, uma lógica que não fomos capazes de interromper até aqui?
Uma literatura abundante foi divulgada na Zona de Contágio sobre os vínculos entre nosso modo de vida – nossa relação com o planeta – e a pandemia do Coronavirus. Esses vínculos seriam de três ordens, pelo menos. Primeiro, a intensidade do comércio mundial (justificada em sua escala atual principalmente por um diferencial de custos de produção, ligado às diferenças de níveis de vida entre diferentes países); e a intensidade do turismo de massa, ligado à redução dos preços dos transportes de longa distância, aceleram a um só tempo a produção de gases de efeito estufa e a ampliação das condições de circulação dos vírus. Segundo, o modo operatório do agro-negócio, com seu impacto sanitário sobre a população, mas também sobre a redução da cobertura florestal e sober a biodiversidade, ampliam o espaço e as oportunidades de difusão de doenças ditas “zoonóticas”. Por fim, o crescimento das desigualdades ligadas à globalização e às políticas neoliberais criaram bolsões de pobreza – entre outros, na China – que funcionam como focos particularmente favoráveis à difusão dessas doenças. O coletivo Chuang descreve de forma impressionante o desmantelamento do sistema sanitário herdado da era socialista e as condições de acesso a alimentos e remédios de que dispõem os trabalhadores chineses, pontuadas por sucessivos escândalos. (Cf. « Contagio Social : guerra de clases microbiológica en China », Artilleria inmanente, março de 2020 https://artilleriainmanente.noblogs.org).
Também Luiz Marques, em seu artigo citado, explica que as megacidades da Ásia do leste, e principalmente da China, vêm sendo o principal “hotspot” de infecções zoonóticas. Esses países justamente figuram entre os que mais perderam cobertura florestal no mundo em benefício do sistema alimentar carnívoro e globalizado. De 2001 a 2018, a China perdeu 94,2 mil km2 de cobertura arbórea. “Extração de madeira e agropecuária consomem até 5 mil km2 de florestas virgens todo ano. Na China setentrional e central a cobertura florestal foi reduzida pela metade nas últimas duas décadas”. Por outro lado, “entre 1980 e 2015, o consumo de carne na China cresceu sete vezes e 4,7 vezes per capita (de 15 kg para 70 kg per capita por ano ao longo deste período). Com cerca de 18% da população mundial, a China era em 2018 responsável por 28% do consumo de carne no planeta (Rossi 2018)”.
As demandas em direção do comércio agro-exportador mundial provenientes da China afetam diretamente a economia brasileira. Apesar da desaceleração do nosso comércio exterior em 2020 (25% a menos que em 2019), a soja ainda representa 37% das nossas exportações para os chineses, seguida do minério de ferro (23%) e do petróleo bruto (18%) (Folha de S. Paulo, 20 X 2020). Todos os nossos desastres ambientais estão resumidos nesses três produtos.
Como escapar a uma tal lógica, sem a ajuda de múltiplas pandemias?